Eu poderia muito bem começar esta resenha da seguinte forma: Homem solitário encontra mulher, convive com ela por quatro noites não consecutivas, se apaixona e ao final fica sozinho, pois ela prefere o amor pela qual chorava no inicio dos encontros. Talvez uma plataforma de streaming resumisse assim a trama. Seria um total reducionismo da obra.
Noites Brancas pode ser
considerada um laboratório literário de Dostoiévski, nas quais já aparecem os
elementos que serão fundamentais em sua obra como a solidão, o isolamento, a fantasia,
a necessidade de afeto, a dificuldade de viver em um mundo real, e o eterno
conflito entre o que imaginamos e o que realmente vivemos.
Neste livro, escrito em
1848, Dostoiévski ainda não é o escritor sombrio, filosófico e atormentado pela
maturidade, mas já desponta a sua tentativa de entrar na mente humana de
pessoas comuns, que possuem seus dramas e seus sonhos que encontraremos em
obras futuras.
É interessante lembrar
que Noites Brancas fecha um ciclo de escrita do autor, que é preso no ano
seguinte por sua participação em grupos intelectuais (Círculo Petrashevski),
uma experiência que irá marcar o restante de sua vida e de seus escritos.
O autor iniciou sua
carreira em um ambiente cultural chamada realismo russo. Havia neste momento um
grande interesse por pessoas absolutamente comuns, pobres e marginalizadas.
Mas, Dostoiévski abordou outro ponto de vista. Ao invés de apresentar como a
sociedade tratava essas pessoas, ele nos apresenta uma tentativa de mostrar
como essas pessoas experimentavam internamente sua própria existência.
Em Noites Brancas, por
exemplo, não temos simplesmente um homem solitário porque a sociedade o
abandonou. O Sonhador é alguém que transformou a própria solidão em uma maneira
de viver. Ele conhece a cidade, observa seus habitantes, cria relações
imaginárias com pessoas que sequer sabem que ele existe. É uma solidão muito
peculiar e escolhida por ele.
Não é por acaso que o
protagonista se chama O Sonhador, não como alguém apenas romântico, mas como um
ser que se abstraiu da vida real e vive apenas em seu mundo. A forma como ele
vive é uma faceta do ato de fuga. Ele deseja viver, isso fica claro no livro,
mas não sabe como fazer isso. Ele quer se relacionar, mas não sabe como estabelecer
conexões. Consequentemente ele deseja amar, mas sua experiência de amor é algo
idealizado, vivido apenas em sua cabeça.
Ai surge uma pergunta:
─ Será que imaginar
intensamente uma vida pode substituir o ato de vivê-la?
Você passa o livro todo
se perguntando isso.
A narrativa é feita em
primeira pessoa, o que é essencial na trama. É o próprio Sonhador que nos conta
a sua história, seus medos. Ele conversa com o leitor. Ele cria uma intimidade
como se o próprio sonhador, em um ato de bravura, permitisse a entrada de
pessoas reais em sua vida. Mas, ao mesmo tempo, como narrador de seu próprio
drama ele pode nos apresentar apenas uma visão da história. E isso pode deixar
o leitor confuso:
─ Afinal, ele sofre ou
não pela jovem Nástienka? Ela é apenas um objeto de um jogo amoroso ou uma
tabua de salvação que o traz para a realidade?
Tem outro ponto
importante que no leva ao questionamento durante a trama. Será que o Sonhador
ama realmente Nástienka, ou ele ama a experiência de estar apaixonado por ela?
Dostoiévski parece nos
deixar todas essas perguntas em aberto, para que possamos, tal qual o Sonhador,
criar nossa própria realidade sobre a trama.
Cabe falar aqui que a
cidade de São Petersburgo é uma personagem silenciosa. O Sonhador caminha sobre
ela, dialoga com as casas, ruas, lugares e pessoas que ele não conhece. A
cidade é intima dele, mas as pessoas são apenas uma ideia do que seria
conectar-se a alguém. A cidade parece ser a pessoa, e as pessoas que nela vivem
seriam os objetos. Isso fica claro na passagem ao qual ele quase cumprimenta o
homem que sempre o vê, mas no último momento ambos abaixam a cabeça e seguem
seu caminho.
Noites Brancas parece
estar em um limiar, assim como o próprio nome nos lembra. Este termo “Noites
Brancas” representa o tempo em que a luz do sol praticamente não desaparece dos
céus de São Petersburgo. Um tempo em que a noite flerta com a claridade do dia,
assim como o personagem que não está completamente na realidade, mas também não
está completamente no sonho.
Para finalizar, pois
caberiam aqui muitas e muitas páginas a serem ditas sobre esta obra, cabe falar
de Nástienka. Ela não é apenas uma jovem pela qual o narrador se apaixona. É
alguém muito rica em nuances que vão da ingenuidade, do sonho, da consciência
da realidade à uma certa inconsequência (ela beija o Sonhador, mas na sequência
fica com o outro).
Ela parece ter uma
vontade imensa de viver, ao mesmo tempo em que é limitada pelo alfinete que a
prende a avó. Nástienka sonha com uma realidade diferente para poder escapar da
situação em que se encontra. Ela quer viver.
O Sonhador parece não
preencher as características necessárias para auxiliar a jovem. Ela, apesar de
sua jovialidade e impulsividade parece ser mais realista que o Sonhador. Ela
faz perguntas, ela estabelece condições, ela diz o que quer e o que não quer.
Ao final fica a pergunta
que Dostoiévski não respondeu:
─ Ela realmente se
apaixona pelo sonhador?
Esta questão fica no ar
para que o leitor possa, diante de sua própria realidade, responder a questão.
Não consigo parar de
pensar nesta história.
Recomendo a leitura e
estou curiosa para saber se você já leu.
Título: Noites Brancas
Autor: Fiódor Dostoiévski
Tradução: Nivaldo dos Santos
Gênero: Literatura Russa
Editora: Editora 34
Páginas: 96 páginas
Sobre o Autor: Fiódor Dostoiévski (1821–1881)
nasceu em Moscou e é considerado um dos maiores escritores da literatura russa
e universal. Estreou na literatura em 1846, com Pobres Gentes, e desde cedo demonstrou
interesse pelos conflitos sociais e, sobretudo, pela complexidade da alma
humana. Em 1849, foi preso por participar de um círculo de intelectuais acusado
de atividades subversivas e condenado à morte, pena comutada no último instante
por trabalhos forçados na Sibéria. A experiência marcou profundamente sua vida
e sua obra. Entre seus principais livros estão Crime e Castigo, O Idiota, Os Demônios e Os Irmãos Karamázov,
romances nos quais investiga temas como culpa, liberdade, fé, sofrimento e
dilemas morais. Morreu em São Petersburgo, em 1881, deixando uma obra que
permanece central para a literatura e para a compreensão da psicologia humana.

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