26/02/2012

A Trágica história do Doutor Fausto

Há um ditado que diz “quem procura acha”, e foi o que aconteceu. Meses atrás do texto Doutor Fausto, de Christopher Marlowe me colocaram diante de uma adaptação muito boa. Não era a edição que eu queria, mas também, como poderia indicar a leitura de um texto se até nos sebos está quase impossível encontrá-lo?
A editora Difel possui uma coleção intitulada “O mais atual do Teatro Clássico” e o volume I traz duas peças de Marlowe: Doutor Fausto e “Dido, a rainha de Cartago.” Vou separar em dois posts por que cada uma destas peças merecem uma análise individualizada.
Alguns de vocês devem estar se perguntando: Quem foi Christopher Marlowe?
Quem assistiu ao filme “Shakespeare Apaixonado” deve se lembrar de um desafeto do autor que morre esfaqueado em uma briga na taverna. Este personagem é Christopher.
Marlowe nasceu em 1564, no mesmo ano de Shakespeare e é cercado de muitos mistérios e lendas. Diziam que ele era espião da Rainha Elizabeth II e delatava os delinquentes londrinos. Além disso, há histórias que afirmam ele ter pertencido a Escola da Noite, um misterioso grupo ligado a alquimia, a magia e a difundir os conceitos modernos de Galileu e Copérnico sobre a teoria do heliocentrismo. Afirmam também que ele recebeu de seu mestre o segredo da pedra filosofal. Mas tudo isso são histórias que não são confirmadas, ou talvez alguma sociedade secreta atual possa nos informar sobre isto.
O fato é que ele foi um dramaturgo brilhante e segundo alguns críticos, melhor que Shakespeare, sendo que este o superou apenas após a morte de Marlowe.
Doutor Fausto, ou como no português “A Trágica história do Doutor Fausto” foi a primeira versão para teatro da lenda alemã sobre o estudioso que vende sua alma ao diabo em troca de conhecimento e poder.
Na obra desfilam anjos, demônios e humanos que se encontram em profundo questionamento sobre o bem e o mal. Muito mais que isso, Fausto quebra o paradigma da criação do homem e sua natureza divina, quando joga sua eternidade fora para superar as limitações humanas.
Fausto desfruta de 24 anos de poder e satisfação até que o demônio volta para buscar sua alma e o despedaça em profunda alusão a divisão que o homem encontra dentro de si mesmo ao questionar e tentar superar seus limites.
Quem não daria a alma em troca de todo o conhecimento da Terra? É essa a questão discutida durante todo o texto e ao final você termina a leitura com a impressão que a resposta tem várias vertentes, assim como o mundo subatômico pertence à esfera de incerteza e do olhar do observador.
A tradução e adaptação de Luiz Antonio Aguiar está impecável. Não pense que encontrará um texto fácil pelo fato de ser uma adaptação. Aguiar conseguiu trazer esta tragédia para a linguagem atual sem perder o peso do original. Afinal, não dá para imaginar um Fausto fácil de ler como um gibi.
O outro texto “Dido, a Rainha de Cartago” será comentado em outro post.

Para saber mais sobre Marlowe e a Escola da Noite:
505 Grandes Escritores – Julian Patrick. Editora Sextante

The Secret History of the World, Jonathan Black. Editora Quercus

Acompanhe também a página da autora Deborah Harkness no facebook, que em seu próximo livro Sombras da Noite (Mesmo título do poeta contemporâneo de Marlowe, George Chapman, pertencente a Escola da Noite) algumas destas histórias como elemento de ligação da trama, conforme informação do site da autora.
Na internet há muita informação, as mais confiáveis estão em Inglês.

22/02/2012

Festa no Covil

Quando você pensa que já viu tudo em literatura, aparecem histórias como esta. Juan Pablo Villalobos nos surpreende com a temática que vai nos levar de uma história ingênua ao mundo do narcotráfico.
Qualquer semelhança com problemáticas brasileiras não terá sido mera coincidência, mas uma irmandade imoral e criminosa.
Por que digo isso? Por que o narcotráfico é uma problema que assola o Brasil, nossas crianças e consequentemente qualquer futuro que elas possam sonhar.
Em festa no Covil, romance de estréia do autor,  a vida de um poderoso chefe do narcotráfico, “El Rey” é narrada por seu filho, Yolcault.
O garoto não tem idade definida, mas é esperto e curioso. Trancado em um palácio, não sabe nada sobre seu pai e, a meu ver, da vida fora daqueles muros.
Seu passatempo é investigar tudo que está investido de uma aura de mistério. Além disso, coleciona chapéus e palavras difíceis, que procura no seu dicionário. Além disso, cultiva o sonho de completar seu minizoológico com um exemplar de um raríssimo hipopótamo anão da Libéria.
Problemas no México e revezes nos “negócios” do pai, leva Yolcault a um safári na África para capturar o objeto de seu sonho.
A grande questão do livro não é sobre a realização ou não de sonhos absurdos, mas a inconsistência de uma vida que não terá opções no futuro, a não ser assumir os negócios escusos do pai.
Narrado em primeira pessoa, o menino nos leva do riso ao constrangimento da vida no submundo. Você fica pensando quantos Yolcault existem nas favelas do Rio de Janeiro, e quantos “El Rey” estão por ai destruindo vidas.
O romance é pequeno em tamanho e grande em reflexão. Vale uma leitura atenta, despida de preconceitos. Por que o mundo não é feito apenas deste tipo de realidade, mas ela existe e deve ser pensada.

17/02/2012

Realidade Paralela

O que vem a sua mente quando ouve a expressão Realidade Paralela? Sua mente consciente talvez faça um apanhado de divagações que irão da psiquiatria, filmes de ficção científica até a física quântica. Segundo os físicos, a mente humana é capaz de trabalhar diversas realidades ao mesmo tempo. Você acredita nisso?
João Antonio Chagas, autor do livro Realidade Paralela, parece acreditar. Em seu livro de estréia constrói uma história intrincada no qual dois mundos sobrevivem paralelamente um ao outro. Bem diferente do livro “O fim da eternidade”, de Isaac Asimov, no qual as duas realidades se interagem e fazem parte da mesma história, em Realidade Paralela você tem a sensação de ler dois livros ao mesmo tempo.
Apesar deste comentário, não pense que você lerá dois livros. Não, na verdade o livro narra a história de Andrew que está vivendo dentro de seu próprio inconsciente,  descrito em primeiro pessoa, e a história dele e da mãe (em terceira pessoa) na vida que consideramos real, dentro de um hospital no qual acontece um sequestro que o próprio Andrew, inconsciente, é a vitima.
É muito fácil entender a estrutura. Imagine-se inconsciente, vivendo um coma no hospital. Agora, imagine tudo o que acontece na vida das pessoas que você conhece durante este período. Se houvesse um narrador com a capacidade de acessar os dois mundo, ele poderia contar o que se passa na sua cabeça durante este período e na vida real. Emocionante!
Esta experimentação literária, desenvolvida habilmente por João Antonio Chagas, só foi possível chegar a público graças ao trabalho primoroso da editora  Clube de Autores, que abre um espaço para escritores desconhecidos do grande publica editar sua obras e oferecê-las no sistema sob demanda, ou seja, o livro só é impresso a pedidos.
Eu recomendo a leitura e a reflexão, que já povoou a mente de dezenas de filósofos:
- O que é real? Você, agora, está vivendo a realidade ou tudo isso é um sonho?
Pense, leia o livro e depois me conte.

Realidade Paralela pode ser encontrado no site do Clube de Autores:
versão impressa, a R$31,06
ebook (PDF), a R$12,06.

11/02/2012

As receitas amorosas de uma feiticeira

A edição em francês do livro “As receitas amorosas de uma feiticeira”, de Brigitte Bulard-Cordeau, traz também como titulo: “grimório mágico”.
Grimório é uma espécie de diário mágico, o local onde uma bruxa, ou bruxo, anota detalhes sobre feitiços, mapas astrológicos, lista de anjos e demônios, forma de misturar remédios e venenos, fabricação de talismãs, etc. A palavra vem do francês antigo gramaire que tem a mesma raiz que a palavra gramática.
Não conhecia a autora, não vi absolutamente nada sobre este livro alias, pesquisando na internet sobre o assunto descobri que pouquíssimas matérias foram escritas sobre ele. O fato é que a belíssima e encantadora capa me chamou a atenção outro dia na livraria e o conteúdo é realmente fascinante.
O livro é uma espécie de fantasia gastronômica que mistura as tradições encontradas em grimórios considerados de bruxas com a simplicidade da gastronomia européia. São 100 receitas que vão de ervas até bebida e poções mescladas a textos históricos sobre as tradições de certas plantas como a hortelã, a rosa, a capuchinha, ou dicas, como a que alerta para não servir nunca torradas com pimenta antes do jantar por que irá tirar a fome de seus convidados.
É uma delícia passear pelas bem ilustradas páginas e fazer uma viagem gastronômica em um mundo mágico, no qual se acreditava que alimentos, licores e infusões tinham poder. Será que não possuem ainda? Prometo que vou testar.
No Brasil o livro foi lançado pela Editora Senac em conjunto com a Editora Boccato em um edição de tirar o fôlego que não fica atrás da francesa. A única ressalva é que o livro foi impresso na China e a capa da minha edição soltou-se no terceiro dia que estava comigo. Além disso, nas páginas internas no tópico “Compras e Colheita” e “De Olho no relógio” a tipologia usada é pequena demais o que dificulta a leitura já que o fundo de página é todo trabalhado. Talvez fosse o caso do Senac, em uma próxima edição, aumentar pelo menos um ponto no corpo de letra.
Ainda não tive tempo de testar as receitas, confesso que algumas são um enigma, já que alguns ingredientes como “Alho-de-urso” não são conhecidos aqui. Mas uma boa parte delas é viável, principalmente se você conhecer um bom supermercado que venda estas iguarias como lavanda comestível, flores de capuchinha, pétalas de rosa comestíveis. Aqui em São Paulo, o Santa Luzia na Alameda Lorena  é uma boa opção para encontrar ingredientes para estes pequenos e deliciosos feitiços.
Depois, toda cozinheira, culinarista e chef sabe que a gastronomia é mágica, é só lembrar do sabor de um prato que você mais gosta, ou ler este trecho de Paris é uma Festa, de Ernest Hemingway:
“Quando provei as ostras, com seu sabor forte de mar e seu sutil aroma metálico, que o vinho branco frio tratou de afastar, deixando somente o gosto de mar e a suculenta textura, e ao beber o líquido frio de cada concha que lavava com o fresco sabor do vinho, perdi aquele sentimento de vazio, passei a sentir-me feliz e comecei a fazer planos”
Pura magia, você não acha?

Fotos: (1) Capa do livro
(2) Grimórioo Antigo

20/01/2012

O Príncipe dos Poetas

Menotti aos 90 anos
“Em qualquer terra em que os homens amem.
Em qualquer tempo onde os homens sonhem.
Na vida.” (1)

Não poderia deixar de homenagem a cidade de São Paulo que completará 458 anos de uma existência plena, cultural e repleta dos problemas das grandes metrópoles. Para isso, escolhi o tema Literatura.
Infelizmente o estudo da Literatura escolar não dá a necessária ênfase aos paulistas e paulistanos, exceto pelo Movimento Modernista, que é visto muito mais no conjunto de uma obra (e isso é bom) que na individualidade de seus participantes.
São Paulo gerou grandes nomes da literatura, e dentre eles Paulo Menotti Del Picchia, um de meus favoritos.
Ele nasceu em 20 de março de 1892 aqui na cidade de São Paulo, e viveu parte de sua vida em Itapira, onde hoje se encontra seu memorial e a Academia de Letras Menotti Del Picchia.
Menotti quando jovem
O Príncipe dos poetas, como foi aclamado no ano de 1982 foi um dos grandes colaboradores da semana de arte moderna, e um poeta de rara sensibilidade.
Dentre suas obras mais conhecidas está Juca Mulato (infelizmente esgotada no editor) na qual ele retrata um caboclo triste que era apaixonado pela filha da patroa. Como o sentimento não poderia nunca ser recíproco ele busca de todas as formas aplacar a dor, não deixando de lado a morte, da qual é resgatado por seres da natureza.
Menotti retrata o caboclo do mato com a simplicidade e singeleza de um amor impossível levado a sensibilidade extrema de que era possuidor. Veja um exemplo da capacidade sensorial de Menotti Del Picchia:


“1
Nuvens voam pelo ar como bandos de garças,
Artista boêmio, o sol, mescla na cordilheira
pinceladas esparsas
de ouro fosco. Num mastro, apruma-se a bandeira
de São João, desfraldando o seu alvo losango.

Juca Mulato cisma. A sonolência vence-o
Vem, na tarde que expira e na voz de um curiango,
o narcótico do ar parado, esse veneno
que há no ventre da treva e na alma do silêncio.
Um sorriso ilumina o seu rosto moreno.

No piquete relincha um poldro; um galo álacre
tatala a asa triunfal, ergue a crista de lacre,
clarina a recolher entre varas de cerdos e
mexem-se ruivos bois processionais e lerdos
e, num magote escuro, a manada se abisma na treva.

Anoiteceu.
Juca Mulato cisma. “(2)


Menotti deixou um grande número de obras divididas entre romances, poesia, contos, crônicas, novelas, teatro, ensaios e monografias. Infelizmente parte de sua obra não pode mais ser encontrada nas livrarias como Salomé, República 3000, Máscaras, Juca Mulato, Dente de Ouro dentre outras. Visitas aos sebos da cidade talvez nos ajudem a resgatar parte deste passado glorioso.
Particularmente eu gosto dos trechos abaixo das obras Noite e Máscaras, pela evocação imagética e sensitiva que desfrutamos ao lermos suas palavras.

Noite

As casas fecham as pálpebras das janelas e dormem.
Todos os rumores são postos em surdina,
todas as luzes se apagam.

Há um grande aparato de câmara funerária
na paisagem do mundo.

Os homens ficam rígidos,
tomam a posição horizontal
e ensaiam o próprio cadáver.

Cada leito é a maquete de um túmulo.
Cada sono em ensaio de morte.

No cemitério da treva
tudo morre provisoriamente.” (3)

Máscaras vienenses
 
As Máscaras

O teu beijo é tão doce, Arlequim...
O teu sonho é tão manso, Pierrô...

Pudesse eu repartir-me
encontrar minha calma
dando a Arlequim meu corpo...
e a Pierrô, minha alma!

Quando tenho Arlequim,
quero Pierrô tristonho,
pois um dá-me prazer,
o outro dá-me o sonho!

Nessa duplicidade o amor todo se encerra:
Um me fala do céu...outro fala da terra!

Eu amo, porque amar é variar
e , em verdade, toda razão do amor
está na variedade...

Penso que morreria o desejo da gente
se Arlequim e Pierrô fossem um ser somente.

Porque a história do amor
só pode se escrever assim:
Um sonho de Pierrô
E um beijo de Arlequim!” (4)

Trechos extraídos das seguintes obras de Menotti Del Picchia:
(1) Máscaras
(2) Juca Mulato
(3) Noite
(4) Máscaras