É proibido a reprodução das resenhas ou qualquer outro texto do blog sem a prévia autorização por e-mail do autor, e sem os devidos créditos.

13 de fev de 2017

Armadilha

Autor:  Melanie Raabe
Tradutor: Karina Janini
Editora: Jangada
Número de páginas: 304
Ano de Lançamento: 2016
Avaliação do Prosa Mágica:  7,0


Thriller Psicológico não é o tipo de livro que está na minha lista de “os mais queridos”, mas Armadilha de Melanie Raabe, Editora Jangada superou minhas expectativas.
Trata-se da história de uma renomada escritora que vive reclusa, devido a sua síndrome do pânico, causada pelo assassinato de sua  irmã há 12 anos. Na época, Linda viu o assassino, mas ele nunca foi encontrado. Agora, por uma armadilha qualquer do destino, Linda vê o autor da morte de sua irmã na TV. Ele é um conhecido repórter internacional. Decidida a desmascarar o assassino, Linda planeja uma armadilha, na qual ela estará sozinha para enfrentar o repórter.
O livro é brilhante em abordar como a mente do ser humano é traiçoeira, e talvez inimiga de nosso bem estar. Linda sofre de síndrome do pânico, e no entanto é capaz de escrever um livro que conta a morte de sua irmã e conceder uma entrevista ao assassino, o  levando direto a sua casa. Sem proteção e ajuda de ninguém.
A trama nos lembra aqueles filmes de suspense, cujo longo corredor dá em uma porta, e você fica tenso e atento, pois atrás daquela porta existe algo aterrador. No entanto, já passado do meio da trajetória, algo sai do teto e nos faz o coração sair pela boca, como se estivéssemos lá, dentro da trama.
O livro é interessante por que trabalha dois momentos, nos apresentando um livro dentro de um livro. O momento atual, cuja protagonista é Linda, a escritora, e o outro que se apresenta nos trechos do livro “Irmãs de Sangue”, escrito por Linda para fisgar o assassino.
Não se trata de um livro fácil, cuja leitura vai nos aliviar dos problemas cotidianos. Armadilha é para deixar tenso, perplexos, com vontade de buscar manuais de psicologia para compreender a mente dos personagens.

É sem dúvida um ótimo exemplo de literatura alemã.

6 de fev de 2017

O Perfume da Folha de Chá

Autor:  Dinah Jefferies
Tradutor: Alexandre Boide
Editora: Paralela
Número de páginas: 432
Ano de Lançamento: 2017
Avaliação do Prosa Mágica:  9,5


Se os lançamentos editoriais de 2017 forem na mesma qualidade de “O Perfume da Folha de Chá”, teremos um ano excepcionalmente bom para leitura.
O Perfume da Folha de Chá se passa no exótico Ceilão (Hoje Sri Lanka) e conta a história de Gwendolyn, uma jovem inglesa que se casa com um proprietário de uma grande fazenda de chá. O casamento parece paradisíaco, no entanto, a vida no Ceilão não é o que aparentava ser. Há uma eterna briga entre ingleses, cingaleses e tamils, o que desencadeia relações que a jovem não foi educada para compreender. Lá, uma armadilha do destino e o excesso de segredos, transformarão a vida de Gwendolyn após o nascimento de seus filhos. Desde então, a jovem que era aberta e sincera se vê obrigada a guardar um terrível segredo, algo que ela acredita que irá destruir sua vida.
Dinah consegue retratar muito bem uma época que não existe mais, tempos em que os ingleses se deslocavam para suas colônias com o objetivo de ganhar dinheiro, e junto levavam suas jovens esposas. Um tempo onde não havia internet, avião e qualquer noticia levaria semanas para chegar através de uma carta. O Perfume da Folha de Chá fala sobre a ascensão destas pessoas e também de sua vertiginosa queda com o crash da bolsa de Nova York. É um livro que aborda o preconceito inter-racial, a intolerância que permeia todos os povos e não é exclusividade do “homem ocidental”.
A autora é hábil em nos conduzir em um mundo totalmente diferente, com truques que nos iludem e nos deixam sofrer até o final. Há tempos eu não era tão iludida em um romance! E digo isso por que durante a leitura eu estava certa que o vilão era um personagem em específico, e quando cheguei ao final descobri que Dinah consegue nos enganar como um bom romancista de mistério.
Dinah também é muito boa para descrever cenas, talvez por que ela tenha nascido na Malasia. Tem horas que somos capazes de sentir o cheiro da chuva que cai na terra; das flores que desabrocham no jardim, ou da poeira que encobre os cômodos escondidos da casa.
Trata-se de um “novelão” à moda antiga, como há muito tempo eu não lia. Um livro para chorar, rir e torcer para que no final tudo dê certo para Gwen.

É fascinante, inteligente e aos moldes dos clássicos ingleses, talvez por isso tenha feito tanto sucesso por lá.


27 de jan de 2017

A Noite do Mi’raj

Autor:  Zoë Ferraris
Tradutor: Vera Whately e Cláudia Mello Belhassof
Editora:  Record
Número de páginas: 350
Ano de Lançamento: 2009
Avaliação do Prosa Mágica:  8


Existem histórias que nos deixam perplexos, não por sua criatividade ou estilo literário, mas pelo fundo de realidade que seus personagens contêm. “A Noite do Mi’raj” é um desses livros.
A trama nos mostra uma Arábia Saudita vista por trás dos véus e burcas das mulheres.  Uma vida sem “vida”, um eterno arrastar do tempo cercado de hipocrisia e falsa moral.
Nouf é a filha de 16 anos de uma rica família, que desaparece pouco antes de seu casamento arranjado. Seu irmão Othman contrata Nayier, um amigo que abraçou a cultura beduína, para que tentasse encontrar Nouf. No entanto, após um pequeno período, a garota é encontrada morta no deserto e Nayier conhece  Katya, noiva de Othman, que trabalha em uma espécie de IML. Juntos, eles percorreram os bastidores de uma cidade onde as mulheres não têm direitos, e vão desvendando o que se esconde por trás da morte de Nouf.
A trama nos mostra um Nayier que parte de princípios rígidos aprendidos em sua religião, e que vai se modificando ao conhecer a verdadeira realidade da vida das mulheres daquele país.  Tem uma passagem interessante na qual Katya exemplifica o drama daquelas mulheres:

“- Imagine se você não pudesse ir ao deserto – disse ela – Não pudesse nem mesmo sair de casa sem a permissão de alguém. Teria dinheiro e tudo mais, porem, se quisesse fazer alguma coisa, não lhe dariam permissão. A única coisa que poderia fazer era casar e ter filhos.” (pág. 249)

É um livro contraditório, que nos apresenta um mundo estranho. Um lugar onde as mulheres podem se vestir com joias, comprar roupas de marca, andar de jetsky, mas não podem exibir nada do que possuem, não podem conversar com outras pessoas, e nem mesmo ter a liberdade de sonhar com uma vida melhor.
Por que existe sim uma diferença bem clara entre o que prega a religião e a política dos países onde a maioria religiosa são os mulçumanos. Por mais que uma família seja liberal, suas esposas e filhas ao sair na rua estarão expostas as leis do país e a ignorância daqueles que não compreendem e não contextualizam as palavras da religião. Zöe Ferraris foi extramente feliz e engenhosa ao colocar este tema no livro.

“A Noite do Mi’raj” não é um livro genial, nem poderia ser. Não dá para se deliciar com uma história que fala sobre as injustiças e a degradação que as mulheres são submetidas por pura ignorância. No entanto, a autora no proporciona uma reflexão, e um eterno questionar: - O que podemos fazer para que esta situação mude? – Confesso que ainda não encontrei uma resposta, mas com certeza ela não poderá ser impregnada de intolerância e preconceito.

17 de jan de 2017

A Garota Italiana

Autor:  Lucinda Riley
Tradutor: Fernanda Abreu
Editora:  Arqueiro
Número de páginas: 464
Ano de Lançamento: 2016
Avaliação do Prosa Mágica:  9


Beethoven dizia “A melodia é a vida sensível da poesia”. Nada é tão verdadeiro como esta frase na obra de Lucinda Riley, construída como uma grande opera na qual a dramaticidade se sobressai com as tonalidades da traição e da dor amorosa.
Por outro lado, Nietzche nos apresenta um lado forte nesta grande música criada por Lucinda Riley. O filosofo nos diz que “A música oferece às paixões o meio de obter prazer delas”.  Que definição melhor se teria para o personagem Roberto Rossini? Quem mais em “A Garota Italiana” explora todos os prazeres que a música pode lhe trazer?
Rosanna Menice é uma simples garota italiana, que aos onze anos conhece Roberto Rossini e decide que se casará com ele no futuro. Mas Rosanna não é só isso, ela é uma grande cantora, que conta com a ajuda de seu irmão Luca para trabalhar sua voz até estar pronta para receber uma bolsa de estudos no grande Scala de Milão.
Rosanna é esforçada, determinada e já muito nova, desponta como uma grande artista. Roberto é quase um lugar comum; - um homem com grande talento, mas que se deixa seduzir não só pelos prazeres do mundo, mas pela beleza que possui e que seduz qualquer mulher que encontra pela frente.
Por incrível que parece, é Roberto quem descobre na garotinha Rosanna o talento. É ele quem indica o primeiro professor, e é o cantor que se tornará seu par na primeira apresentação no papel principal de uma opera.
O cantor não será só seu partner nos palcos, mas se torna o marido de Rosanna na vida real, e é neste ponto que Lucinda emprega toda aquela fórmula que estamos acostumados (e apaixonados) em seus romances: - homem trai mulher e casamentos que não funcionam.
Lucinda Riley consegue introduzir nesta grande “opera” outros personagens interessantíssimos como Abi, a cantora lírica que não é tão talentosa; o irmão Luca, que possui um coração de ouro e uma cabeça muito confusa; e a irmã Carlotta, que aparece muito pouco na trama, mas que tem um papel primordial. É como se ela fosse escalada para cantar um solo de apenas 3 minutos em uma opera, mas sua atuação é tão marcante que determina o ritmo do restante do espetáculo.
Confesso que chorei no desfecho do livro. É impossível não chorar. A autora não escreveu “A Garota Italiana” para que terminássemos rindo, mas perplexos, emotivos e completamente envolvidos por personagens tão reais.
 A trama é antiga. Lucinda escreveu nos seus primórdios de escritora, e como ela mesma disse, ainda carecia da maturidade que possui hoje. No entanto, “A Garota Italiana” já revelava a grande carga de humanidade que ela empregaria em seus livros, e não só isso, o trabalho minucioso de pesquisa que ela faz e que neste livro precisou fazer, em uma época em que a internet ainda não era tão”poderosa” e o único recurso eram as bibliotecas.

Se todos os romances antigos tiverem esta força, estarei torcendo para que sejam republicados rapidamente. Seria muito complicado passar um único ano sem ler algo novo de Lucinda Riley.


10 de jan de 2017

Trono & Ossos – Jornada no Gelo

Autor:  Lou Anders
Tradutor: Jacqueline Damásio Valpassos
Série: Tronos & Ossos
Editora:  Jangada
Número de páginas: 344
Ano de Lançamento: 2016
Avaliação do Prosa Mágica:  9+


A primeira resenha do ano sempre tem um toque especial, um certo mistério, pois acredito que ela determine o ritmo do ano de leituras que irá iniciar. Quase sempre minhas resenhas do inicio de janeiro são as últimas leituras do ano anterior, que eu deixei para publicar depois das festas, datas que ninguém lê nada na internet. Jornada no Gelo, da série Trono & Ossos, do autor norte americano LouAnders fechou 2016 com chave de ouro.
Lou Anders criou uma ficção medieval recheada de dragões, guerreiros, gigantes, anões e criaturas estranhas como os wyverns, serpentes aladas que são encontradas na heráldica europeia. A série Tronos & Ossos cria um mundo fantástico, quase fílmico, cuja leitura flui de maneira prazerosa e fácil.
Jornada no Gelo, o primeiro livro da trilogia, apresenta dois adolescentes de 12 anos completamente diferentes:- Thianna, metade humana e metade gigante do gelo, que pela sua pouca estatura para os gigantes a faz se sentir deslocada naquela comunidade. Thianna é filha de uma humana Talaria, que roubou um estranho chifre que tem poderes especiais, e é o estopim para a perseguição implacável que se abate sobre Thianna.
Já Karn é um Norrønir, cujo pai é um grande e respeitado fazendeiro (hauld). No futuro Karn deverá se tornar um hauld, mas hoje ele só pensa em jogar Trono & Ossos, o que gera um certo desgosto em seu pai.
Karn e Thianna são levados pelos seus país, pela primeira vez, para uma grande feira de comércio. Lá eles se conhecem e se aproximam. O que eles não sabem é que uma sucessão de acontecimentos os levará em uma jornada de aventuras e perseguição, na qual deverão testar não só sua coragem, mas sua força de amizade. E, é só neste resumo. Contar mais seria estragar a surpresa.
É um livro delicioso de se ler. Fluido, sem grande floreios linguístico, mas com muita ação e magia, exatamente na medida certa para adolescentes e crianças.
Thianna e Karn são personagens simpáticos, leves e reais. Adolescentes que se sentem desajustados em uma sociedade que cobra deles o comportamento repetitivo dos velhos costumes.
Lou Anders não construiu um herói, mas pessoas comuns, o que é um alívio nesta enxurrada de livros que transformam mulheres em heroínas irreais.
A edição está primorosa, e mais uma vez a Editora Jangada está de parabéns. Revisão impecável, impressão de qualidade e, uma supresa no final, uma espécie de manual de instruções para que você possa aprender a jogar Tronos & Ossos. Além disso, há um glossário com os termos novos que são usados no livro, o que é muito útil já que Lou Andres constrói um mundo novo que precisamos compreender para entrar de vez na trama.

Trono & Ossos – Jornada no Gelo é minha primeira indicação para 2017. Uma leitura divertida que deve ser vista por todas as idades, pois o texto não possui cenas violentas demais ou outros tópicos mais adultos.