É proibido a reprodução das resenhas ou qualquer outro texto do blog sem a prévia autorização por e-mail do autor, e sem os devidos créditos.

1 de nov. de 2019

Mais leve que o ar

Autor:  Felipe Sali
Editora: Lote 42
Número de páginas: 160
Ano de Lançamento: 2016
Avaliação do Prosa Mágica:  8
                       

Li esta história em pouquíssimo tempo, e ela me surpreendeu. Em primeiro lugar porque você tem a sensação de estar lendo um livro para crianças, até que se depara com cenas que não são para elas, e você descobre que Pablo e Melissa – protagonistas da trama – são praticamente adultos.
Em segundo lugar por que – e em minha opinião este é o ponto forte do livro – a história de Pablo e Melissa é muito mais poesia que prosa.
“Mais leve que o Ar” conta a história de amor de Melissa e Pablo. Ela, uma druida pertencente ao povo e ele, um nobre. Pablo é um talentoso inventor, que cria uma máquina voadora em um tempo em que isso não existia, e nem os mais poderosos feitiços seriam capazes de tamanha façanha.
A máquina voadora de Pablo me parece muito mais uma grande metáfora de alguém que tenta sair da “caixinha” de pensamento que a sociedade impõe a seus habitantes.
Mas também tem outros personagens interessantes como a Princesa Isabel, Vó Marga, o pequeno dragão no jardim da casa de Pablo, e é claro, Melissa, a garota que faz flores.
Felipe Sali é um prodígio da internet. Começou a escrever na plataforma Wattpad e depois foi convidado a passar para o papel “Mais leve que o ar”. O livro ainda se encontra na plataforma e pode ser lido de forma gratuita. Mas eu recomendo a edição impressa, que está muito bem editada e possui um mapa de Amberlin, o reino onde tudo acontece.



6 de set. de 2019

A Rosa e o Florete


Autor:  Mariana Pacheco
Editora: Novo Século
Selo: Talentos da Literatura Brasileira
Número de páginas: 416
Ano de Lançamento: 2016
Avaliação do Prosa Mágica:  10
                       

É encantadora a forma como a literatura brasileira vem ganhando novos talentos que estão acrescentando leveza aos nossos livros, sem perder a profundidade de suas reflexões. Editoras como a  Novo Século, com o selo “Talentos da Literatura Brasileira” estão apostando nestes novos escritores.
Confesso que poucas vezes me senti tão escassa de palavras para falar sobre um livro, como aconteceu com “A Rosa e o Florete”, de Mariana Pacheco.
A Trama é ambientada na Paris do século XVIII, cadinho pré-revolucionário. Um pai visionário e uma filha forte constroem uma história que nos leva a extremos como a estranheza e as lágrimas.
Mirna é a filha de um comandante da guarda real Francesa, que ensinou a filha a arte do florete. A mãe, Austríaca, deu a filha a delicadeza e a força de viver em um país que rejeita sua nacionalidade.
Com a morte do pai, o inusitado acontece. Um testamento coloca Mirna no comando da guarda real, e agora, a menina precisará provar não só a sua agilidade com o florete, mas a sua capacidade diplomática.
 A protagonista quebra grandes tabus da época e sua trajetória nos faz refletir sobre um período histórico tão incensado e ao mesmo tempo tão sangrento.
O livro é fruto de uma pesquisa profunda sobre o período. A Revolução Francesa é mostrada exatamente como aconteceu, com suas ideias e com a realidade que se abateu sobre um povo sofrido.
“A Rosa e o Florete” é um livro para se apaixonar, cuja leitura se torna indispensável para quem ama boa literatura.

30 de ago. de 2019

A Filha do Reich

Autor:  Paulo Stucchi
Editora: Jangada
Número de páginas: 416
Ano de Lançamento: 2019
Avaliação do Prosa Mágica:  10
                       
Vamos começar esta resenha com a sinopse:

“Ao receber a notícia da morte de seu pai Olaf, um ex-soldado alemão refugiado no Brasil , Hugo Seemann viaja à Serra Gaúcha para cuidar do funeral. Contudo, o que parecia ser uma mera formalidade de despedida a um pai que nunca conhecera de verdade, torna-se uma jornada ao passado e aos horrores da Alemanha nazista. Durante o funeral, Hugo recebe a visita da jovem Valesca Proença, que lhe mostra uma carta enviada por Olaf à sua mãe, contendo estranhas revelações que contradizem tudo o que achavam que sabiam a respeito de seus respectivos pais. Buscando desvendar esses antigos segredos há muito enterrados, eles partem para Colônia, onde descobrirão suas origens e o passado sombrio de Olaf. Uma trama envolvendo amizades, traição, morte, amor e milagres que uma obscura organização surgida na época do Terceiro Reich fará de tudo para manter em segredo, na intenção de encobrir a verdadeira identidade sobre uma criança conhecida somente como... A Filha do Reich.”

As hábeis mãos de um escritor podem transformar um assunto árido em algo empolgante, recheado de emoções fortes e sinceras. Paulo Stucchi consegue isso e muito mais em seu livro A Filha do Reich, publicado pela editora Jangada.
Paulo colocou a história e a visão de um soldado nazista nos olhos de personagem dos dias de hoje, Hugo, um publicitário que começa a descobrir sob o passado do pai apenas depois de sua morte. E, esta forma de narrar os fatos humaniza a história.
Não estamos acostumados a pensar nos nazistas como seres humanos. Na maior parte do tempo nos referimos a eles como monstros (e realmente foram), no entanto nos esquecemos de que houve pessoas dentre eles que foram obrigados a fazer aquelas barbaridades, e que em alguns casos, tentaram salvar inocentes daquele holocausto inimaginável. Oscar Schindler foi um deles.
A Filha do Reich é repleta destas surpresas, destes pontos de vistas inusitados, de uma ambientação perfeita nos detalhes, de personagens bem delineados que não são idolatrados em nenhum momento, mas apresentados como seres humanos.
Encantei-me com a escrita fluente, com o toque de thriller empregado pelo autor, que nos prende da primeira a última linha sem que consigamos respirar.  
É nítido que Paulo Stucchi fez uma pesquisa detalhada para escrever o livro, e talvez seja exatamente isso que nos deixa encantado e perplexo com os detalhes.
É uma leitura que eu recomendo em todos os sentidos, mas o principal deles é a reflexão. Os fatos reais deste livro não podem acontecer nunca mais, e para isso precisamos nos lembrar constantemente de onde o “ser humano” pode chegar quando troca sua humanidade pelo poder.
Paulo Stucchi está de parabéns pela sua criatividade e habilidade em nos fazer refletir sobre isso.

23 de ago. de 2019

Por uma vida mais simples


Autor:  André Cauduro D’Angelo
Editora: Cultrix
Número de páginas: 232
Ano de Lançamento Brasil: 2015
Avaliação do Prosa Mágica:  -
                       


O que é a felicidade? Com certeza cada um de nós tem uma frase para explicá-la, mas o certo é que a felicidade não é algo exterior a nós, mas faz parte de quem somos como essência.
Sócrates, o filosofo, não acreditava na felicidade como a satisfação de nossos desejos, mas o ato de ter uma conduta justa e honesta. Já Aristóteles, discípulo de Platão, acreditava que também precisamos suprir nossas necessidades básicas como a boa saúde, a liberdade (em oposição a escravidão) e situação socioeconômica adequada. Também acreditava que felicidade era fruto de uma harmonia e equilíbrio na prática do bem.
Em seu livro “Por uma vida mais simples”, André Cauduro D’Angelo discute a felicidade como fruto de uma simplicidade autoimposta.
O livro tem uma abordagem bem interessante, e é muito bem embasado já que é fruto de uma pesquisa acadêmica.
Se tomarmos por base apenas o fato de Aristóteles falar sobre equilíbrio, percebemos que o retorno autoimposto a uma simplicidade, por si só não funciona.
Quando você pesquisa o tema percebe que todas as pessoas que abandonaram a vida que levavam e optaram por uma “simplicidade”, eram muito ricas. E, de certa forma, preenchiam vazios interiores com carros, roupas caras, excessos alimentares e outros bens absolutamente supérfluos. Não havia equilíbrio.
Não consigo imaginar uma pessoa que vive o dia a dia em condições de “escassez” fazer um discurso desses.
Você percebe que as pessoas que mais falam em simplicidade, são as que mais abusaram dela. E, mesmo retornando a este estado, ainda possuem capacidade para “bem estar de saúde e socioeconômico”,pois o que lhes faltava era apenas a liberdade, já que estavam completamente obliviadas pelo material.
Então, quando li o livro fiquei pensando naquelas pessoas que moram no interior do país, que possuem tão pouco para viver, que precisam muitas vezes implorar por um atendimento de saúde ou para ter uma comida um pouco diferente na mesa. Será que elas diriam que essa “falsa simplicidade” é algo bom?
A meu ver, e está é minha opinião, quando vejo pessoas falando que vão abandonar seus hábitos de consumo (geralmente excessivos), ou que não irão trocar de celular e carro como se troca de roupas, mas vivem em uma casa muito boa, tem plano de saúde, usam roupas de qualidade e mesmo morando em um sítio, não vivem em taperas, fico questionando se isso é realmente uma opção pela simplicidade ou seguir uma tendência.
Parte das pessoas vivem imersas em um mundo de “mentiras”, na qual consumo em excesso preenche um vazio interior renitente. Ser simples não é adotar o modelo “São Francisco de Assis” e sair nu pelas ruas. Simplicidade está no caráter, na forma como nos relacionamos com as coisas, a comida, a moda e o mundo. Ser simples é ser honesto com seu próprio ser
.

Ser consciente no consumo, não ostentar bens materiais, se preocupar com o próximo, com a natureza sempre fez parte dos deveres da humanidade, o que aconteceu no último século foi que as pessoas se desviaram desta rota.
Tenho consciência que extrapolei o estilo “resenha”, mas minhas desculpas são que este não é um livro para se resenhar, mas para se debater as ideias, e confesso que estou adorando fazer isso aqui no blog.
Você vai me perguntar se vale a pena ler; SIM, vale muito. Não é possível você discutir um assunto sem conhecimento mínimo sobre o tema, e por outro lado, ele também servirá como reflexão de vida.
Leia e depois me conte o que sentiu.

16 de ago. de 2019

Romancista como vocação


Autor:  Haruki Murakami
Tradutor: Eunice Suenaga
Editora: Alfaguara
Número de páginas: 168
Ano de Lançamento Brasil: 2017
Avaliação do Prosa Mágica: 7
                       

Romancista como Vocação é um ensaio que aborda o processo criativo levando em conta os diversos aspectos de uma criação literária, dentre eles a originalidade, os personagens, os temas, os prêmios. Todos esses aspectos são abordados de forma corriqueira, como em um bate papo, que a primeira vista parece quase um monologo, por que Murakami dá a impressão de não deixar margem para um diálogo.
Haruki Murakami é um dos mais conhecidos romancista japonês, suas obras já foram traduzidas para 42 idiomas. Sua linguagem simples, seca, sem muitos adjetivos ou metáforas, a primeira vista parece ser de uma inabilidade gigante diante da escrita, quando na verdade tudo é deliberado, planejado para provocar sensações.
Culturalmente Murakami não seria um rebelde, e isso se reflete em sua obra, mesmo quando o fato relatado parece transgredir, o ato acaba sendo apenas um ato criativo, um pequeno e desculpável desvio de conduta.
A impressão que passa é que Murakami se tornou escritor por acaso. Ele não teve preparo nenhum para isso, não frequentou cursos, apenas decidiu escrever e foi em frente. No entanto, com um largo background de leitura, não é de se admirar o sucesso que atingiu.
Murakami foi o “marginal” de sua sociedade. Não foi um aluno brilhante, casou-se antes de buscar um trabalho e construir seu repertório trabalhando em uma zona boemia de Tóquio, lugar no qual aprendeu sobre a vida, as pessoas e o mundo. Ele fala em seu livro:
“...mas quando eu trabalhava lá pessoas completamente estranhas  e interessantes perambulavam por Kobukichô e proximidades. (...) Foi nesse lugar animado, diversificado, às vezes duvidoso e violento, que aprendi muito sobre a vida(...)”
O escritor recebeu diversos prêmios e foi indicado ao Nobel, mas não venceu. Existe um grande questionamento sobre este fato, mas não me considero conhecedora o suficiente da obra de Murakami para sequer levantar hipóteses.
Mas, voltando ao livro, não se trata de um manual de como escrever bem, na verdade ele se assemelha muito mais a um “diário adolescente”, muitas vezes repetitivo, sem que isso o torne vulgar.
Outras vezes, Romancista como vocação parece um desfile de personagens cotidianos que podem ser encontrados em qualquer rua de Tóquio.
Murakami é disciplinado, e em minha opinião, essa é a maior mensagem de seu livro. Muitas vezes as pessoas romanceiam a vida do escritor, imaginando que as ideias caem do céu e vão diretamente para o papel e se transformam no livro acabado. Quem escreve de verdade sabe que não é assim. Eu mesma, para escrever os quatro romances que publiquei passava de 5 a 8 horas por dia diante do computador, mesmo que muitas vezes isso resultasse em uma única página escrita.
Haruki escreve por 4 a 5 hora e produz 300 páginas por mês, faz exercícios físicos e não se isola da humanidade em sua “caverna particular”.
No entanto o escritor precisa da criatividade, e Murakami nos fala do caos criativo, que ele cita fartamente como uma busca interior dentro do inconsciente de cada um.
Não me parece que Haruki Murakami é a criatividade em pessoa, com uma mente arguta e engenhosa. No entanto, dentro de sua simplicidade, ele não segue a massa, ele tem e expressa suas próprias opiniões sem se deixar levar por rótulos e convenções. Talvez ai se encontre a fórmula de seu grande sucesso.
Se Murakami fosse poesia, com certeza ele não seria Camões ou Shakespeare. O autor seria Bashô, simples como um Haikai, mas profundo na grandeza de seus significados.