Talvez ao lado da sua casa, escondido entre as paredes que separam vocês haja um escritor, alguém se debatendo com um texto, ou rindo de alguém que ele mesmo criou e que agora senta a mesa, dorme na mesma cama e toma banho juntinho dele. Esse alguém está lá, naquele exato momento criando uma história que você poderá ler, e que será sua companhia por algumas horas. Talvez te faça rir, talvez chorar ou quem sabe seja o porto seguro que você buscava naquele dia turbulento que parecia sem fim e sem saída. Escrever não é fácil. Pablo Neruda se enganou ao dizer ao contrário disso. O problema nunca é a maiúscula que inicia e nem o ponto final que termina a trama. É o que vai no meio, muitas vezes escrito as custas de sangue e lágrimas. Não estou exagerando nem um pouco. Tem horas que escrever é doloroso, mas você sabe que precisa fazer aquilo. É maiêutico. Depois que o escritor põe no papel a história ele se eterniza, não importa o tipo de texto que escreveu. Se foi algo profundo ou s...
Há livros que atravessam os séculos porque continuam fazendo perguntas. E há outros que atravessam os séculos justamente porque precisamos continuar perguntando se ainda deveríamos lê-los da mesma maneira. A Megera Domada , de William Shakespeare, pertence às duas categorias. Escrita provavelmente no final do século XVI, a comédia apresenta Catarina, uma jovem de temperamento forte, inteligente, impetuoso e pouco disposta a obedecer às convenções sociais de seu tempo. Ao seu redor, está uma sociedade que parece ter uma solução pronta para mulheres que não se comportam como se espera delas: encontrar alguém que as "domine". É nesse cenário que surge Petrucchio, homem determinado a conquistar Catarina — não exatamente por seu encanto romântico, mas porque acredita ser capaz de transformá-la em uma esposa dócil e obediente. E é justamente aí que começa o nosso desconforto. Porque, quando lemos a peça hoje, é difícil não perceber que aquilo que em outra época podia ser ...