Dois mil e vinte e seis parece estar apressado. Janeiro se foi em um piscar de olhos. Bem na hora do “Feliz Ano Novo” você piscou e o primeiro de fevereiro já bateu na sua porta. Meu janeiro foi uma riqueza de leituras e descobertas. Comecei a pegar livros em uma biblioteca pública, algo que nunca havia feito. Em meus tempos escolares eu vivia em bibliotecas fazendo pesquisas, mas a leitura de um bom romance sempre foi algo que acontecia após uma ida a livraria. Aqui em São Paulo é muito fácil se associar a uma biblioteca. Basta procurar uma em seu bairro, levar documento com foto e comprovante de endereço e pronto, você pode pegar até quatro livros a cada quinze dias. Melhor ainda é que você pode pesquisar o catálogo pela internet e ir diretamente a biblioteca que tem o livro que você quer ler. Eu vou a Biblioteca Mario Schenberg, um primor de lugar com uma bibliotecária extremamente simpática e solicita. Agora, voltando as leituras que serão resenhas em fevereiro, vou começ...
Desde a primeira frase, Crônica de uma morte anunciada , de Gabriel García Marquez, coloca o leitor diante de uma certeza incômoda: Santiago Nasar vai morrer. O que poderia ser apenas o ponto de partida de um romance policial transforma-se, nas mãos do autor, em uma investigação moral sobre honra, culpa coletiva e o peso das tradições. Não se trata de descobrir quem matou, mas de compreender por que ninguém impediu. A narrativa assume a forma de uma crônica reconstruída muitos anos depois. O narrador retorna à pequena cidade para recompor os acontecimentos a partir de depoimentos fragmentados, memórias falhas e documentos incompletos. Essa estrutura desmonta a ideia de verdade única: cada personagem lembra de um detalhe diferente, cada versão carrega suas próprias lacunas. Assim, o próprio texto se torna um espelho da sociedade que descreve — confusa, contraditória e, sobretudo, conivente. O motor da tragédia é o antigo código de honra. Quando Angela Vicario é devolvida pelo marido...