O Mundo de Sofia é uma história daquelas que se contam a beira de uma fogueira, em um lugar cercado de arvores em uma noite estrelada. Jostein Gaarder utiliza-se de um recurso milenar para ensinar. Quantas histórias, comportamentos e ensinamentos foram transmitidos através de fábulas e histórias que eram contadas de pais para filhos, de geração a geração entre as tribos e aglomerados humanos? O ponto alto do livro é o capítulo sobre Freud, porque ele justifica todo o enredo, principalmente quando entra no inconsciente. Aos poucos vamos descobrindo que estamos lendo um livro dentro de um livro, que também pode ter mais uma camada de leitura. Quando o autor nos apresenta o mundo paralelo, ele homenageia os escritores e a criatividade. De onde vêm os personagens que os escritores “criam”? Para onde vão depois que a última página é lida? Escritores são aprisionadores de personagens, ou eles conseguem escapar do olhar oniciente deles? É lindo, e como escritora, amei esta refl...
“Mãezinha, eu não estava lá para cobrir o seu corpo, e tenho apenas palavras - palavras de uma língua que você não entendia - para realizar aquilo que você me pediu. E estou sozinha com minhas pobres palavras e com minhas frases, na página do caderno, tecendo e retecendo a mortalha do seu corpo ausente.” Há livros que não se leem apenas com os olhos, mas com o corpo inteiro. A Mulher de Pés Descalços, da escritora ruandesa Scholastique Mukasonga, é um deles. A obra nasce do gesto mais radical da literatura: escrever para não deixar morrer. Ao reconstruir a figura da mãe, Stefania, assassinada no genocídio contra os tutsis em Ruanda, Mukasonga transforma a memória em território de resistência, onde cada palavra tenta salvar aquilo que a violência tentou apagar. O título já carrega uma força simbólica pungente. Os pés descalços da mãe não são apenas sinal de pobreza ou submissão, mas expressão de uma existência profundamente ligada à terra, aos rituais, à sabedoria ancestral. Stefani...