“Mãezinha, eu não estava lá para cobrir o seu corpo, e tenho apenas palavras - palavras de uma língua que você não entendia - para realizar aquilo que você me pediu. E estou sozinha com minhas pobres palavras e com minhas frases, na página do caderno, tecendo e retecendo a mortalha do seu corpo ausente.” Há livros que não se leem apenas com os olhos, mas com o corpo inteiro. A Mulher de Pés Descalços, da escritora ruandesa Scholastique Mukasonga, é um deles. A obra nasce do gesto mais radical da literatura: escrever para não deixar morrer. Ao reconstruir a figura da mãe, Stefania, assassinada no genocídio contra os tutsis em Ruanda, Mukasonga transforma a memória em território de resistência, onde cada palavra tenta salvar aquilo que a violência tentou apagar. O título já carrega uma força simbólica pungente. Os pés descalços da mãe não são apenas sinal de pobreza ou submissão, mas expressão de uma existência profundamente ligada à terra, aos rituais, à sabedoria ancestral. Stefani...
O título causa espanto para você? Sem dúvida me causou também? Como assim? Comprar um poeta? Em um mundo cada vez mais orientado por números, metas, produtividade e resultados, a pergunta que atravessa Vamos Comprar um Poeta , do escritor português Afonso Cruz, causa um incômodo extremamente necessário: o que acontece quando tudo passa a ter preço, mas quase nada tem valor? Publicada em 2016, a obra se apresenta como uma fábula contemporânea, que pode ser lida em uma única tarde, mas que nos remete a profundas reflexões sobre arte, linguagem e humanidade. A narrativa nos conduz a um universo distópico assustadoramente próximo do nosso. Nesse mundo, tudo é mensurável e avaliado segundo sua utilidade econômica. Palavras são caras, sentimentos são desperdício e relações humanas passam pelo filtro da eficiência. Não há espaço para o supérfluo, para o inútil, para aquilo que não gera retorno imediato. É nesse contexto que uma família, a pedido da filha, decide comprar um poeta. O gest...