por Pedro Ivo* Como escritor e artista autodidata, meu método de trabalho parte, principalmente, da observação. Registro na memória falas alheias, maneirismos, sons, fatos e pequenos causos do cotidiano. Minha matéria-prima é a realidade, aquilo que acontece de fato. Toda a minha ficção fala sobre o real, ainda que atravessado pelo fantástico. Mas o que acontece quando perdemos nossa capacidade de consenso? Quando já não conseguimos concordar nem sobre o que é a própria realidade? Entre o avanço das inteligências artificiais (capazes de mimetizar a vida com uma precisão cada vez mais inquietante) e o tsunami de notícias falsas que sequestra a percepção pública, parece que estamos abrindo mão da capacidade coletiva de reconhecer o que é verdadeiro. A realidade, antes entendida como um pacto social mínimo, fragmentou-se em milhões de feeds personalizados que raramente dialogam entre si. São pacotes de realidade customizada, moldados por algoritmos, interesses e emoções. Nesse c...
Na década de 70 uma campanha publicitária balançou o Brasil, ela pedia para que as pessoas se mexessem. Era um convite ao exercício físico. O país, aos poucos, foi se conscientizando da necessidade de sair do sedentarismo e usufruir dos benefícios que a atividade física proporciona. Hoje, mais do que nunca, precisamos retomar a campanha, mas desta vez o “mexer-se” fica por conta do cérebro. Até a década de 2010, mais ou menos, o QI das pessoas vinha em pleno crescimento. O cérebro era estimulado por uma série de fatores que passavam pela saúde, pelo crescimento das oportunidades de estudo e também pela interação que tinham com familiares e amigos. Nosso cérebro tinha exercício diário para se desenvolver. Então veio o smartphone e uma determinada rede social, e aos poucos outras tomaram conta do nosso dia a dia. Trocamos a leitura de algumas páginas, por um rolar incessante da tela do celular. Lemos qualquer coisa em qualquer perfil, e nos esquecemos de ler as sessões de opi...