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Os Perigos do Imperador

A história pode ser tão interessante quanto à ficção? Rui Castro nos demonstra isso, quando com suas mãos hábeis nos apresenta uma trama que mescla a história real com fatos criados por sua cabeça privilegiada. Conhecido por suas biografias detalhadas, Rui Castro coloca em Os Perigos do Imperador com seu talento parte de um período interessante do Império com cartas e diários, e cria uma trama golpista que deixa as atuais como simples brincadeiras de crianças malvadas. Que Dom Pedro II foi uma das grandes personalidades deste país ninguém tem dúvida. Apesar de todo o apagamento histórico a que foi submetido, como se o período do Império tenha sido algo danoso à Nação, nosso Imperador resiste a qualquer crítica. Ele era uma pessoa culta que amava o país. Ao longo de sua vida criou varias instituições culturais no Brasil. Acreditou e trouxe os primeiros telefones para   cá. Pedro II falava diversas línguas e traduzia textos clássicos, muitos deles ainda consultados pelos aca...
Postagens recentes

A Literatura Como Resistência

por Magda Oliveira A vida inspira muitas histórias, ou são elas que inspiram a vida? Trata-se de um dilema antigo que acabo de inventar. Os dilemas se cruzam na minha mente desde a primeira infância, em Curvelo-MG, onde nasci no início dos anos de chumbo da ditadura militar. Ser uma menina criativa naquela ambiência de medo e pânico era sufocante, mas não para mim, para os meus pais e professoras da alfabetização, pois a criatividade não se aprisiona. Em casa me deixavam à solta em muitos metros quadrados do quintal da casa dos meus avós; alguns anos mais tarde, na escola, as composições mais críticas eram lidas apenas pelos olhos das professoras, que riam com o canto da boca e eu as observava com o canto dos olhos.  “Dentro dessa menina tem duas”, dizia a minha avó materna quando me ouvia falando sozinha no meio das inúmeras cenas que eu plantava naquele terreiro, como eram chamados os quintais grandes do interior mineiro. Lembro-me de enfileirar paus e pedrinhas e iniciar o q...

E se faltar ideia?

A pergunta é muito simples, mas envolve momentos de angustia, de incerteza e de sofrimento. A ideia de escrever esta postagem veio exatamente da falta de ideia sobre o que escrever. Já se perguntou de onde vem à inspiração para os escritores e para as sessões de opinião dos grandes jornais e blogs? Passou pela sua cabeça, em algum instante, que aquele escritor amado possa ter sofrido de “falta de ideias” e parado a escrita por um longo período? Pois é, isso acontece e muito. Clarice Lispector, por exemplo, passou um tempo sem ideia nenhuma para escrever, e acabou dedicando o tempo a pintura de quadros enquanto elas (as ideias) não voltavam. É bem assim mesmo. As ideias parecem partir muitas vezes em longas viagens, e precisamos aguardar que elas retornem, de preferência com mais força e conhecimento. Quando escrevo ficção, tenho a sensação que os personagens sentam-se a mesa comigo e vão contando sua história. Dão detalhes da vida, passagens engraçadas, fazem reflexão sobre o o...

Heroínas da Independência

Há maior prazer e encantamento do que se deixar levar por uma história? Em minha singela opinião, não. As narrativas nos ajudaram a evoluir, a sermos os humanos que somos hoje, melhores que ontem e piores do que amanhã. Conhecia Manuela Dias como autora de telenovelas e projetos para TV. Não sabia do lado escritora de livros dela. Quando leio sua biografia, na orelha do livro, logo no primeiro parágrafo descubro que ela foi aluna de nada menos que Gabriel Garcia Marques. Não precisava nem ter lido o texto e assistido as novelas para saber que ela seria sensacional. Heroínas da Independência é uma “joia rara”. O livro todo é escrito na forma de cordel. Fluido e extremamente sonoro, nos faz ler do começo ao fim de uma “tacada” só. Não é possível parar no meio, você quer continuar na trilha sonora de palavras que contam a história de três mulheres que foram primordiais para nossa história, e que infelizmente foram apagadas do Brasil por uma História contada por homens. Maria Quit...

O escritor mora ao lado

Talvez ao lado da sua casa, escondido entre as paredes que separam vocês haja um escritor, alguém se debatendo com um texto, ou rindo de alguém que ele mesmo criou e que agora senta a mesa, dorme na mesma cama e toma banho juntinho dele. Esse alguém está lá, naquele exato momento criando uma história que você poderá ler, e que será sua companhia por algumas horas. Talvez te faça rir, talvez chorar ou quem sabe seja o porto seguro que você buscava naquele dia turbulento que parecia sem fim e sem saída. Escrever não é fácil. Pablo Neruda se enganou ao dizer ao contrário disso. O problema nunca é a maiúscula que inicia e nem o ponto final que termina a trama. É o que vai no meio, muitas vezes escrito as custas de sangue e lágrimas. Não estou exagerando nem um pouco. Tem horas que escrever é doloroso, mas você sabe que precisa fazer aquilo. É maiêutico. Depois que o escritor põe no papel a história ele se eterniza, não importa o tipo de texto que escreveu. Se foi algo profundo ou s...

A Megera Domada

Há livros que atravessam os séculos porque continuam fazendo perguntas. E há outros que atravessam os séculos justamente porque precisamos continuar perguntando se ainda deveríamos lê-los da mesma maneira. A Megera Domada , de William Shakespeare, pertence às duas categorias. Escrita provavelmente no final do século XVI, a comédia apresenta Catarina, uma jovem de temperamento forte, inteligente, impetuoso e pouco disposta a obedecer às convenções sociais de seu tempo. Ao seu redor, está uma sociedade que parece ter uma solução pronta para mulheres que não se comportam como se espera delas: encontrar alguém que as "domine". É nesse cenário que surge Petrucchio, homem determinado a conquistar Catarina — não exatamente por seu encanto romântico, mas porque acredita ser capaz de transformá-la em uma esposa dócil e obediente. E é justamente aí que começa o nosso desconforto. Porque, quando lemos a peça hoje, é difícil não perceber que aquilo que em outra época podia ser ...

A lição do lápis de cor

Tenho aprendido cada vez mais com a pintura. Não só as técnicas do lápis de cor, mas lições que podem ser levadas para vida. Colorir significa observar, parar e olhar com atenção detalhes que passam despercebidos no cotidiano. Uma sombra do vidro de açúcar que reflete na toalha da mesa em formas inusitadas, um brilho no nariz do ator da novela que se destaca, o verde quase negro de um conglomerado de árvores no fundo da paisagem. É quando você percebe que a pelagem branca de um cachorro não pode ser representada apenas com os lápis brancos, mas você coloca parte dos cinzas da sua caixa, e quem sabe outras cores, dependendo de onde o pet está. Você olha aquelas pinturas na internet e percebe que alguns artistas estão focados nos detalhes, enquanto outros ainda permanecem naqueles conceitos antigos, quando o lápis de cor era apenas um coadjuvante. Aprendi com o tempo que a qualidade papel importa. Se for liso demais não serve para o lápis de cor, se for rugoso demais vai acabar c...

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