O fim do mundo anda meio ocupado ultimamente. Se antes ele vinha com as trombetas do apocalipse, agora chega por notificações: “urgente”, “última hora”, “em desenvolvimento”. Entre uma atualização e outra, alguém menciona tensões como a guerra entre Estados Unidos e Irã, e o planeta suspira — não em surpresa, mas em cansaço. Afinal, o apocalipse, ao que parece, entrou na rotina. Há algo de irônico nisso tudo: enquanto imaginávamos o fim como um grande espetáculo final, ele vai acontecendo em pequenas prestações. Um gelo que derrete aqui, uma floresta que arde ali, uma crise que escala acolá, a ascensão de algumas vertentes políticas radicais, a intolerância. Nada muito cinematográfico, mas suficientemente persistente para nos lembrar de que o extraordinário pode ser, na verdade, ainda estarmos aqui. E, no entanto, a vida insiste. O café ainda esfria sobre a mesa, as pessoas ainda riem de coisas bobas, alguém ainda planta uma árvore sem saber quem vai colher a sombra, crianças ainda...
Fecho o livro e não me movo do lugar. Algo me prende aquela história. É como se você fosse obrigado a se despedir de alguém que nunca mais verá em sua vida. Você fica ali, olhando, pensando nas palavras que não foram ditas, nos abraços economizados, nos momentos que ainda poderiam acontecer. É uma sensação estranha. Falar de Nihonjin, de Oscar Nakasato, é entrar numa espécie de território emocional onde história e silêncio caminham lado a lado. Não é um romance que grita, ele murmura. E talvez seja nesse murmurar que reside sua força mais perturbadora, sua emoção mais forte, a força que nos impulsiona enlouquecidamente a ler sem parar. A narrativa parece nascer de uma pergunta íntima: o que acontece com a alma de alguém quando o país que lhe deu origem fica do outro lado do oceano? Hideo, o patriarca da trama, carrega em si mesmo um Japão que não existe mais, ou talvez só tenha existido dentro dele. A decisão de imigrar não é apenas o transpor um espaço geográfico separado por...