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Heroínas da Independência

Há maior prazer e encantamento do que se deixar levar por uma história? Em minha singela opinião, não. As narrativas nos ajudaram a evoluir, a sermos os humanos que somos hoje, melhores que ontem e piores do que amanhã. Conhecia Manuela Dias como autora de telenovelas e projetos para TV. Não sabia do lado escritora de livros dela. Quando leio sua biografia, na orelha do livro, logo no primeiro parágrafo descubro que ela foi aluna de nada menos que Gabriel Garcia Marques. Não precisava nem ter lido o texto e assistido as novelas para saber que ela seria sensacional. Heroínas da Independência é uma “joia rara”. O livro todo é escrito na forma de cordel. Fluido e extremamente sonoro, nos faz ler do começo ao fim de uma “tacada” só. Não é possível parar no meio, você quer continuar na trilha sonora de palavras que contam a história de três mulheres que foram primordiais para nossa história, e que infelizmente foram apagadas do Brasil por uma História contada por homens. Maria Quit...
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O escritor mora ao lado

Talvez ao lado da sua casa, escondido entre as paredes que separam vocês haja um escritor, alguém se debatendo com um texto, ou rindo de alguém que ele mesmo criou e que agora senta a mesa, dorme na mesma cama e toma banho juntinho dele. Esse alguém está lá, naquele exato momento criando uma história que você poderá ler, e que será sua companhia por algumas horas. Talvez te faça rir, talvez chorar ou quem sabe seja o porto seguro que você buscava naquele dia turbulento que parecia sem fim e sem saída. Escrever não é fácil. Pablo Neruda se enganou ao dizer ao contrário disso. O problema nunca é a maiúscula que inicia e nem o ponto final que termina a trama. É o que vai no meio, muitas vezes escrito as custas de sangue e lágrimas. Não estou exagerando nem um pouco. Tem horas que escrever é doloroso, mas você sabe que precisa fazer aquilo. É maiêutico. Depois que o escritor põe no papel a história ele se eterniza, não importa o tipo de texto que escreveu. Se foi algo profundo ou s...

A Megera Domada

Há livros que atravessam os séculos porque continuam fazendo perguntas. E há outros que atravessam os séculos justamente porque precisamos continuar perguntando se ainda deveríamos lê-los da mesma maneira. A Megera Domada , de William Shakespeare, pertence às duas categorias. Escrita provavelmente no final do século XVI, a comédia apresenta Catarina, uma jovem de temperamento forte, inteligente, impetuoso e pouco disposta a obedecer às convenções sociais de seu tempo. Ao seu redor, está uma sociedade que parece ter uma solução pronta para mulheres que não se comportam como se espera delas: encontrar alguém que as "domine". É nesse cenário que surge Petrucchio, homem determinado a conquistar Catarina — não exatamente por seu encanto romântico, mas porque acredita ser capaz de transformá-la em uma esposa dócil e obediente. E é justamente aí que começa o nosso desconforto. Porque, quando lemos a peça hoje, é difícil não perceber que aquilo que em outra época podia ser ...

A lição do lápis de cor

Tenho aprendido cada vez mais com a pintura. Não só as técnicas do lápis de cor, mas lições que podem ser levadas para vida. Colorir significa observar, parar e olhar com atenção detalhes que passam despercebidos no cotidiano. Uma sombra do vidro de açúcar que reflete na toalha da mesa em formas inusitadas, um brilho no nariz do ator da novela que se destaca, o verde quase negro de um conglomerado de árvores no fundo da paisagem. É quando você percebe que a pelagem branca de um cachorro não pode ser representada apenas com os lápis brancos, mas você coloca parte dos cinzas da sua caixa, e quem sabe outras cores, dependendo de onde o pet está. Você olha aquelas pinturas na internet e percebe que alguns artistas estão focados nos detalhes, enquanto outros ainda permanecem naqueles conceitos antigos, quando o lápis de cor era apenas um coadjuvante. Aprendi com o tempo que a qualidade papel importa. Se for liso demais não serve para o lápis de cor, se for rugoso demais vai acabar c...

Crise de realidade e o novo papel da ficção

por Pedro Ivo* Como escritor e artista autodidata, meu método de trabalho parte, principalmente, da observação. Registro na memória falas alheias, maneirismos, sons, fatos e pequenos causos do cotidiano. Minha matéria-prima é a realidade, aquilo que acontece de fato. Toda a minha ficção fala sobre o real, ainda que atravessado pelo fantástico. Mas o que acontece quando perdemos nossa capacidade de consenso? Quando já não conseguimos concordar nem sobre o que é a própria realidade? Entre o avanço das inteligências artificiais (capazes de mimetizar a vida com uma precisão cada vez mais inquietante) e o tsunami de notícias falsas que sequestra a percepção pública, parece que estamos abrindo mão da capacidade coletiva de reconhecer o que é verdadeiro. A realidade, antes entendida como um pacto social mínimo, fragmentou-se em milhões de feeds personalizados que raramente dialogam entre si. São pacotes de realidade customizada, moldados por algoritmos, interesses e emoções. Nesse c...

Fitness Cerebral para Farmar Aura

Na década de 70 uma campanha publicitária balançou o Brasil, ela pedia para que as pessoas se mexessem. Era um convite ao exercício físico.   O país, aos poucos, foi se conscientizando da necessidade de sair do sedentarismo e usufruir dos benefícios que a atividade física proporciona. Hoje, mais do que nunca, precisamos retomar a campanha, mas desta vez o “mexer-se” fica por conta do cérebro. Até a década de 2010, mais ou menos, o QI das pessoas vinha em pleno crescimento. O cérebro era estimulado por uma série de fatores que passavam pela saúde, pelo crescimento das oportunidades de estudo e também pela interação que tinham com familiares e amigos. Nosso cérebro tinha exercício diário para se desenvolver. Então veio o smartphone e uma determinada rede social, e aos poucos outras tomaram conta do nosso dia a dia. Trocamos a leitura de algumas páginas, por um rolar incessante da tela do celular. Lemos qualquer coisa em qualquer perfil, e nos esquecemos de ler as sessões de opi...

Terapia Literária

  por Fernando Adas A Literatura e a Psicologia compartilham uma curiosidade antiga: ambas querem saber o que fazemos com aquilo que nos acontece. A diferença é que a Psicologia escuta o sujeito em sua singularidade, enquanto a Literatura nos oferece personagens que, embora fictícios, carregam verdades profundamente humanas. Freud já buscava em escritores como William Shakespeare e Fiódor Dostoiévski elementos que ajudavam a compreender conflitos psíquicos. Não por acaso. Muitas vezes, a Literatura chega primeiro onde os conceitos ainda não alcançaram. Ela descreve o amor antes que ele seja teorizado, a perda antes que ela receba um diagnóstico, a angústia antes que encontre um nome. No mundo contemporâneo, marcado por mudanças rápidas e identidades cada vez menos previsíveis, a Literatura oferece algo precioso: a possibilidade de experimentar outras vidas sem abandonar a própria. Ao ler, ampliamos nosso repertório de existência. Descobrimos que nossos impasses não são exclus...

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