Tenho aprendido cada vez mais com a pintura. Não só as técnicas do lápis de cor, mas lições que podem ser levadas para vida. Colorir significa observar, parar e olhar com atenção detalhes que passam despercebidos no cotidiano. Uma sombra do vidro de açúcar que reflete na toalha da mesa em formas inusitadas, um brilho no nariz do ator da novela que se destaca, o verde quase negro de um conglomerado de árvores no fundo da paisagem. É quando você percebe que a pelagem branca de um cachorro não pode ser representada apenas com os lápis brancos, mas você coloca parte dos cinzas da sua caixa, e quem sabe outras cores, dependendo de onde o pet está. Você olha aquelas pinturas na internet e percebe que alguns artistas estão focados nos detalhes, enquanto outros ainda permanecem naqueles conceitos antigos, quando o lápis de cor era apenas um coadjuvante. Aprendi com o tempo que a qualidade papel importa. Se for liso demais não serve para o lápis de cor, se for rugoso demais vai acabar c...
por Pedro Ivo* Como escritor e artista autodidata, meu método de trabalho parte, principalmente, da observação. Registro na memória falas alheias, maneirismos, sons, fatos e pequenos causos do cotidiano. Minha matéria-prima é a realidade, aquilo que acontece de fato. Toda a minha ficção fala sobre o real, ainda que atravessado pelo fantástico. Mas o que acontece quando perdemos nossa capacidade de consenso? Quando já não conseguimos concordar nem sobre o que é a própria realidade? Entre o avanço das inteligências artificiais (capazes de mimetizar a vida com uma precisão cada vez mais inquietante) e o tsunami de notícias falsas que sequestra a percepção pública, parece que estamos abrindo mão da capacidade coletiva de reconhecer o que é verdadeiro. A realidade, antes entendida como um pacto social mínimo, fragmentou-se em milhões de feeds personalizados que raramente dialogam entre si. São pacotes de realidade customizada, moldados por algoritmos, interesses e emoções. Nesse c...