“Mãezinha, eu não estava lá para cobrir o seu corpo, e tenho apenas palavras - palavras de uma língua que você não entendia - para realizar aquilo que você me pediu. E estou sozinha com minhas pobres palavras e com minhas frases, na página do caderno, tecendo e retecendo a mortalha do seu corpo ausente.”
Há livros que não se leem apenas com os
olhos, mas com o corpo inteiro. A Mulher de Pés Descalços, da escritora
ruandesa Scholastique Mukasonga, é um deles. A obra nasce do gesto mais radical
da literatura: escrever para não deixar morrer. Ao reconstruir a figura da mãe,
Stefania, assassinada no genocídio contra os tutsis em Ruanda, Mukasonga
transforma a memória em território de resistência, onde cada palavra tenta
salvar aquilo que a violência tentou apagar.
O título já carrega uma força simbólica
pungente. Os pés descalços da mãe não são apenas sinal de pobreza ou submissão,
mas expressão de uma existência profundamente ligada à terra, aos rituais, à
sabedoria ancestral. Stefania é apresentada como guardiã de tradições, de
crenças e de um modo de vida ameaçado. Ao descrevê-la, a autora não constrói
uma heroína épica, mas uma mulher comum, cuja grandeza reside na insistência em
proteger os filhos, mesmo quando o mundo ao redor se organiza para destruí-los.
A narrativa se estrutura como um mosaico de
lembranças, sem linearidade rígida, refletindo o próprio funcionamento da memória
traumática. Mukasonga escreve em fragmentos, como quem recolhe cacos depois de
uma catástrofe. O tom é contido, quase sereno, e justamente por isso
devastador. Não há excessos sentimentais: a dor aparece filtrada por uma
escrita precisa, que respeita o silêncio e o que não é dito.
Do ponto de vista literário, o livro se
insere numa tradição de narrativas testemunhais, mas vai além do registro
histórico. A autora não escreve apenas para denunciar o genocídio — embora ele
esteja presente como uma sombra constante —, mas para reinscrever sua mãe e seu
povo na história. Trata-se de um gesto ético e político: escrever é devolver
humanidade àqueles que foram reduzidos a números, alvos ou corpos descartáveis.
Socialmente, A Mulher de Pés Descalços nos
confronta com os efeitos duradouros da violência colonial, do ódio étnico e da
exclusão sistemática. Ao mesmo tempo, o livro dialoga com temas universais:
maternidade, pertencimento, exílio e luto. Mesmo quem desconhece a história de
Ruanda encontra na obra uma experiência profundamente humana, que ultrapassa
fronteiras geográficas e culturais.
Ler Scholastique Mukasonga é aceitar um
convite difícil, porém necessário: caminhar descalço pela memória de alguém,
sentindo a aspereza do chão, mas também sua força vital. Ao final da leitura,
fica a sensação de que a literatura, embora incapaz de ressuscitar os mortos,
pode ao menos lhes oferecer um lugar de permanência — um espaço onde continuam
a existir, a falar e a ser lembrados.
Título: A Mulher de Pés Descalços
Autor: Scholastique Mukasonga
Gênero: Romance- Ruanda
Editora: Noz
Páginas: 160 páginas
Sobre o Autor: A escritora ruandesa Scholastique Mukasonga nasceu
em 1956, na região de Gikongoro, no sul de Ruanda, em uma família tutsi. Sua
infância foi marcada pela perseguição étnica institucionalizada contra os
tutsis após a chamada “Revolução Hutu” de 1959. Ainda menina, foi deportada com
a família para a região de Nyamata, uma área de reassentamento imposta pelo
governo — um espaço de marginalização e violência constante.
Nos
anos 1970, conseguiu exilar-se no Burundi, onde estudou Serviço Social. Mais
tarde, estabeleceu-se na França, trabalhando como assistente social na Normandia.
Em 1994, durante o genocídio contra os tutsis em Ruanda, grande parte de sua
família — incluindo sua mãe — foi assassinada. Esse trauma tornou-se o núcleo
ético e literário de sua obra.
Mukasonga
começou a escrever já na França, movida pelo desejo de preservar a memória de
seus familiares e de seu povo. Sua literatura combina testemunho, memória e
ficção, sempre atravessada pela experiência do exílio e pela necessidade de
narrar o indizível. Entre suas obras mais conhecidas estão A Mulher de Pés
Descalços e Nossa Senhora do Nilo (que recebeu o prêmio Renaudot em
2012).
Imagem: Site da Editora Noz

Comentários
Postar um comentário
Obrigada, seu comentário é muito importante.
Caso vá comentar no modo anonimo, por favor assine seu comentário.
Obrigada pela participação.