O Mundo de Sofia é uma história daquelas que se contam a beira de uma fogueira, em um lugar cercado de arvores em uma noite estrelada.
Jostein Gaarder utiliza-se de um recurso
milenar para ensinar. Quantas histórias, comportamentos e ensinamentos foram
transmitidos através de fábulas e histórias que eram contadas de pais para
filhos, de geração a geração entre as tribos e aglomerados humanos?
O ponto alto do livro é o capítulo sobre
Freud, porque ele justifica todo o enredo, principalmente quando entra no
inconsciente.
Aos poucos vamos descobrindo que estamos
lendo um livro dentro de um livro, que também pode ter mais uma camada de
leitura. Quando o autor nos apresenta o mundo paralelo, ele homenageia os
escritores e a criatividade.
De onde vêm os personagens que os
escritores “criam”? Para onde vão depois que a última página é lida? Escritores
são aprisionadores de personagens, ou
eles conseguem escapar do olhar oniciente deles?
É lindo, e como escritora, amei esta
reflexão que o livro nos proporciona.
Mas não é só.
No meu caso foi uma releitura da obra, pois
li na primeira vez em 1995, logo que foi lançada no Brasil. Confesso: ─ Não me
lembrava de quase nada. Foi como se fosse a primeira vez.
É um bom guia para munir o leitor de
elementos para buscar um aprofundamento na filosofia, se bem que na verdade,
tem trechos extremamente profundos, bem explicados, alias tão bem explicados
que algumas coisas da filosofia só fui compreender agora, depois de muitos anos
de vida e de leituras.
A primeira parte, até o capítulo dos
Cartões Postais, você tem uma intensa e extensa aula da filosofia grega e
neoplatonista. É quase uma linha do tempo, digo quase, porque a história não
pode ser encaixotada em uma linha contínua com data e hora para um movimento
acabar e outro começar.
Depois ele entra em uma fase em que
trabalha a idade média e segue com os principais filósofos que conhecemos como
Descartes, Espinosa etc.
Mas é nos próximos capítulos que o autor se
esmera, e filósofos como Kant, Hegel, Marx se tornam fáceis de compreender.
Tem um adendo muito importante, porque Jostein
inclui entre os filósofos Darwin, que foi um naturalista, e Freud, que foi um neurologista
pai da psicanálise.
Ele inclui Darwin porque, mesmo não tendo a
intenção de filosofar, ele fez mudança de mentalidade ao afirmar sua teoria da
evolução, já que até então, acreditava-se que tudo que havia no mundo tinha
sido criado daquela forma.
Em Freud ele nos adverte da nova forma de
ver o humano, de enxergar a consciência, de compreender o ser e o estar no
mundo. É de uma riqueza tremenda.
Ao contrário do que muita gente pensa, O
Mundo de Sofia, em seu âmago, não é
literatura infantojuvenil, principalmente porque entra em assuntos tão
complexos que estão longe do alcance do desenvolvimento intelectual da criança,
creio eu que pelo menos até os 13 anos.
Também não é um bestseller qualquer, como vi citado em varias resenhas. É um bestseller sim (Que maravilha) com conteúdo
para varias leituras e muito estudo.
É engraçado como dá para imaginar Jostein
em uma floresta da Noruega, em um outono frio de céu estrelado. Uma fogueira
feita com galhos de abetos crepita ao centro de um grupo de estudantes. Gorro
na cabeça, blusas acolchoadas, uma caneca fumegante de chocolate quente e
Jostein, com graça e leveza, contando a história de Sofia/Hilde. A plateia está
atenta, o único movimento é o da caneca que sobe aos lábios e desce a um ritmo
vagaroso, como se não quisesse interromper a magia que vai se formando em torno
da roda.
Ao fundo, na floresta, os personagens
dançam felizes, pois suas histórias, mais uma vez, estão sendo compartilhadas.
Eles não irão morrer.
É assim que vejo, não só como blogueira,
mas como escritora. Porque O Mundo de
Sofia é um livro sobre filosofia, mas ele também relata de forma contundente o mundo da escrita e da criação literária. Um
primor!
Aventure-se nesta leitura.
Título: O Mundo de Sofia
Autor: Jostein Gaarder
Tradutor: Leonardo Pinto Silva
Gênero: Romance Norueguês
Editora: Schwaercz
Páginas: 568 páginas
Sobre o Autor: Jostein
Gaarder nasceu em Oslo, 1952. Formado em Filosofia e Teologia, Gaarder
trabalhou durante anos como professor do ensino médio.
O reconhecimento internacional veio com O
Mundo de Sofia.
Ao longo de sua trajetória, Gaarder
manteve-se fiel a alguns temas recorrentes: a crítica ao conformismo moderno, o
questionamento do consumismo, a responsabilidade individual diante do coletivo
e a fragilidade da condição humana. Seus romances frequentemente flertam com o
metafísico e o alegórico, convidando o leitor a desacelerar, observar e
refletir — quase um gesto de resistência em tempos de excesso de informação e
superficialidade.

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