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3 de fev de 2011

Pequenas considerações sobre o prazer de escrever e ler.

Escrever é fácil. Você começa com maiúscula e... sente um vazio existencial depois. Parodiando o grande poeta Pablo Neruda, que por sinal escrevia com maestria, escrever não é tão fácil assim e sabe por quê? Trata-se de um ato absolutamente humano, e como tudo que se refere a nós, tem as influências do humor, da vontade, dos hormônios e da conta bancária, se me permitem dizer isso.
Esqueci de dizer que as nossas antigas professoras de português, muitas vezes, são também responsáveis por este vazio (Aprender português é importantíssimo e necessário, sem ele não atingimos a escrita). Aprendemos na escola que devemos escrever tudo muito certinho, todos os pontos nos seus lugares, todos os acentos devidamente vestidos e, sobretudo, muita oração em ordem direta, o que convenhamos, tira boa parte do charme da escrita.
O escritor, aquele que ama realmente a escrita, deleta de seu português todas as regras, todas as restrições, todas as métricas que aprisionam. Ele escreve, muito, sente um prazer absurdo em fazer isso e só depois, como se fosse necessário um castigo para tal prazer, ele aplica as regras que aprendeu.
Quem escreve geralmente lê muito, e isso já é um clichê conhecido, quanto mais você lê, melhor escreve. Verdade que não precisa ser levada ao pé da letra.
Eu leio por prazer. Leio por que a ficção me encanta, por que gosto de sentir o que outros personagens sentem e viver a vida de outros seres imaginários, e escrevo também por estas e outras razões.
O que é boa literatura? O que é literatura ruim? Alguém conseguiu definir isso objetivamente? Jane Austen foi considerada medíocre em sua época, mas hoje é aclamada como um clássico. O que é bom então?
Na minha modesta opinião a boa literatura é aquela que consegue te absorver, tirar a sua realidade e transformá-la na dos outros durante o período da leitura. Algo cujo texto possua significados pessoais, universais. Isso pode acontecer com Shakespeare, Jane Austen, Machado de Assim, Clarisse Lispector, J.K. Rowling, Stephenie Meyer, Stephen King entre outros.
Digo isso por que incomoda, particularmente, a quantidade de críticas destrutivas a respeito da literatura dos outros. Um bom livro não precisa ser um emaranhado, ou melhor, uma malabarismo lingüístico, que em alguns autores mais parece exibicionismo que conhecimento da língua. Também não é necessário que seu conteúdo seja transgressivo, transformador, inovador ou filosoficamente aceitável. A Bela Adormecida é uma das fábulas mais conhecidas no mundo e nem por isso possui conteúdo filosófico intelectual.
E essa história de crítica é tão maluca, tão difícil de entender que chega as raias da incongruência. Outro dia, impulsionada por uma destas críticas positivas corri para a livraria comprar um livro de um autor (vou usar o genérico masculino pois não direi o nome do autor ou autora) que estava sendo aclamado e com os livros traduzidos para diversos países. Eram vários títulos já publicados e resolvi ficar no primeiro (geralmente o melhor). Quando abri as páginas do tão aclamado título, entrei em choque e me questionei: - isso é considerado literatura de qualidade? Três páginas repletas de palavrões sem muita conexão com a história? Qual é o significado disso?
Charles Bukowsk, escritor norte americano, criou várias obras repletas de situações e textos não “recomendáveis para as boas mocinhas”. No entanto, cada palavra, cada situação tinha um significado muito forte dentro da história. Não havia deslocamentos, gratuidade. No caso do livro que citei no parágrafo acima isso não acontecia. Então, a desconexão, a gratuidade é considerada literatura de qualidade?
Estas considerações levantadas neste texto são apenas para serem refletidas. Você precisa “provar da fruta”, usando um chavão, para saber se ela é gostosa ou não. Assim também funcionam os livros. Ler o primeiro capítulo na livraria, antes de levá-lo, poderá surtir surpresas inigualáveis. Muitas vezes a surpresa vem depois e eu já fui premiada muitas vezes com isso.
Vale à pena despojar-se de preconceitos e arriscar. Livros são amigos queridos e não pós-doutores de quem se exige apenas “conceitos complexos e inovadores”. Leia como uma criança e volte ao prazer de ler.



Um comentário:

Luis Antonio disse...

Embora seja um leitor mediano e apenas um escritor de textos comerciais, necessários para meu trabalho, acabei, meio que por acaso, me aprofundando no mercado de editorial, onde já comprei mais de 700 livros. Pode ter certeza que a maioria deles não deveria ter sido impresso. Fico imaginando o que é necessário de papel para impressão de um livro(tiragem completa), que de verdade não vai acrescentar nada a ninguém, além, é claro, dos autores, editores e distribuidores. Livros podem até movimentar o mercado, dar empregos, resolver a situação financeira de muitos, mas o conteudo...
Adoro seus textos.
Luis