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20 de jan de 2012

O Príncipe dos Poetas

Menotti aos 90 anos
“Em qualquer terra em que os homens amem.
Em qualquer tempo onde os homens sonhem.
Na vida.” (1)

Não poderia deixar de homenagem a cidade de São Paulo que completará 458 anos de uma existência plena, cultural e repleta dos problemas das grandes metrópoles. Para isso, escolhi o tema Literatura.
Infelizmente o estudo da Literatura escolar não dá a necessária ênfase aos paulistas e paulistanos, exceto pelo Movimento Modernista, que é visto muito mais no conjunto de uma obra (e isso é bom) que na individualidade de seus participantes.
São Paulo gerou grandes nomes da literatura, e dentre eles Paulo Menotti Del Picchia, um de meus favoritos.
Ele nasceu em 20 de março de 1892 aqui na cidade de São Paulo, e viveu parte de sua vida em Itapira, onde hoje se encontra seu memorial e a Academia de Letras Menotti Del Picchia.
Menotti quando jovem
O Príncipe dos poetas, como foi aclamado no ano de 1982 foi um dos grandes colaboradores da semana de arte moderna, e um poeta de rara sensibilidade.
Dentre suas obras mais conhecidas está Juca Mulato (infelizmente esgotada no editor) na qual ele retrata um caboclo triste que era apaixonado pela filha da patroa. Como o sentimento não poderia nunca ser recíproco ele busca de todas as formas aplacar a dor, não deixando de lado a morte, da qual é resgatado por seres da natureza.
Menotti retrata o caboclo do mato com a simplicidade e singeleza de um amor impossível levado a sensibilidade extrema de que era possuidor. Veja um exemplo da capacidade sensorial de Menotti Del Picchia:


“1
Nuvens voam pelo ar como bandos de garças,
Artista boêmio, o sol, mescla na cordilheira
pinceladas esparsas
de ouro fosco. Num mastro, apruma-se a bandeira
de São João, desfraldando o seu alvo losango.

Juca Mulato cisma. A sonolência vence-o
Vem, na tarde que expira e na voz de um curiango,
o narcótico do ar parado, esse veneno
que há no ventre da treva e na alma do silêncio.
Um sorriso ilumina o seu rosto moreno.

No piquete relincha um poldro; um galo álacre
tatala a asa triunfal, ergue a crista de lacre,
clarina a recolher entre varas de cerdos e
mexem-se ruivos bois processionais e lerdos
e, num magote escuro, a manada se abisma na treva.

Anoiteceu.
Juca Mulato cisma. “(2)


Menotti deixou um grande número de obras divididas entre romances, poesia, contos, crônicas, novelas, teatro, ensaios e monografias. Infelizmente parte de sua obra não pode mais ser encontrada nas livrarias como Salomé, República 3000, Máscaras, Juca Mulato, Dente de Ouro dentre outras. Visitas aos sebos da cidade talvez nos ajudem a resgatar parte deste passado glorioso.
Particularmente eu gosto dos trechos abaixo das obras Noite e Máscaras, pela evocação imagética e sensitiva que desfrutamos ao lermos suas palavras.

Noite

As casas fecham as pálpebras das janelas e dormem.
Todos os rumores são postos em surdina,
todas as luzes se apagam.

Há um grande aparato de câmara funerária
na paisagem do mundo.

Os homens ficam rígidos,
tomam a posição horizontal
e ensaiam o próprio cadáver.

Cada leito é a maquete de um túmulo.
Cada sono em ensaio de morte.

No cemitério da treva
tudo morre provisoriamente.” (3)

Máscaras vienenses
 
As Máscaras

O teu beijo é tão doce, Arlequim...
O teu sonho é tão manso, Pierrô...

Pudesse eu repartir-me
encontrar minha calma
dando a Arlequim meu corpo...
e a Pierrô, minha alma!

Quando tenho Arlequim,
quero Pierrô tristonho,
pois um dá-me prazer,
o outro dá-me o sonho!

Nessa duplicidade o amor todo se encerra:
Um me fala do céu...outro fala da terra!

Eu amo, porque amar é variar
e , em verdade, toda razão do amor
está na variedade...

Penso que morreria o desejo da gente
se Arlequim e Pierrô fossem um ser somente.

Porque a história do amor
só pode se escrever assim:
Um sonho de Pierrô
E um beijo de Arlequim!” (4)

Trechos extraídos das seguintes obras de Menotti Del Picchia:
(1) Máscaras
(2) Juca Mulato
(3) Noite
(4) Máscaras




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