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30 de mai de 2011

Para Ler Como Um Escritor

"Que a inspiração chegue não depende de mim. A única coisa que posso fazer é garantir que ela me encontre trabalhando." Pablo Picasso

A frase não é do livro, mas bem que poderia ser. Francine Prose consegue a proeza de transformar um livro “didático” em algo absolutamente prazeroso. Como um bom romance, Para Ler como um Escritor (Ed.Zahar, R$ 48,00) consegue nos prender da primeira a última página de maneira quase viciosa.
No livro ela questiona as Oficinas de Escrita, as regras canônicas e tudo o mais que um bom crítico insistiria em se apegar. Ler o livro de Francine Prose é como uma “seção de desapego”.
Como se explica um livro feito por quem ama os livros? Como se explica a paixão?
- Não sei. Tentar uma explicação dessas é como tentar bloquear o fluxo de um rio com as próprias mãos, seria conseguir uma resposta para a questão: De onde vem o amor pelos livros?
A autora disse que abandou o seu Ph.D por que professores e colegas não apresentavam a mesma paixão que ela possuía pelos livros; que eles não estavam lendo como ela lia, que os artigos que produziam eram coisas ininteligíveis e totalmente fora do que ela entendia por literatura.
Pontos de vista diferentes? – Sim, é claro e saudável. No entanto o ponto de vista da autora sobre a literatura é algo que vem da alma de quem ama a literatura, das pessoas que são capazes de estimular um aluno indiferente a ler Machado de Assim – e gostar; de quem lê para voar para outro mundo e não dissertar sobre colocações pronominais e outras avaliações gramaticais e lingüísticas. Pena que a edição brasileira não respeitou o ponto de vista da autora é acrescentou um “posfácio à moda da casa”, extremamente chato e obscuro (isso não significa que o autor do referido posfácio não tenha mérito, apenas o texto apresentado destoa totalmente do restante do livro).
“Para Ler como um Escritor” está dividido em partes importantes para que possamos avaliar um texto – Palavras, Frases, Parágrafos, Narração, Diálogo, Detalhes, Gesto e ao final uma belíssima declaração a Tchekhov.
Não posso dizer que os capítulos são explicações - por que isso seria chato demais – cada um deles é um bate papo de leitores que leem atentamente, degustando cada frase, cada palavra como única e significativa.
No capítulo sobre a Palavra, ela usa um trecho extraído do Grande Gatsby, de S. Fitzgerald, para demonstrar o poder, o som, a imagem que simples palavras podem evocar. Reproduzo o texto que está na página 38.

“As janelas estavam entreabertas e cintilavam, brancas, contra a grama fresca lá fora, que parecia penetrar um pouco na casa. Uma brisa percorria a sala, soprava cortinas para dentro numa ponta e para fora na outra, como pálidas bandeiras, torcendo-as para cima rumo ao bolo de casamento glaçado do teto, e depois ondulava sobre o tapete cor de vinho, fazendo uma sombra sobre ele como o vento faz sobre o mar.
O único objeto completamente estático na sala era um enorme sofá que duas jovens flutuavam como se num balão ancorado. Estavam ambas de branco, e seus vestidos encrespavam-se e adejavam como se tivessem acabado de ser soprado de volta após um curto voo pela casa. Devo ter passado alguns momentos ouvindo o fustigar e o estalar das cortinas e o gemido de um quadro na parede. Depois houve um estrondo quando Tom Buchanan fechou as janelas dos fundos e o vento capturado extinguiu-se na sala, e as cortinas, os tapetes e as duas jovens pousaram lentamente no assoalho.”

Ela segue nesta mesma linha, e a cada trecho apresentado nos leva a querer ler mais e mais destes autores. É uma pena que parte deles não tenha uma tradução para o português. Adoro inglês, mas ler em sua linha pátria é muito mais saboroso que ler em outra língua.
Em resumo, o leitor que começou o livro não será mais o mesmo depois de terminar. Sua leitura muda, seu nível de observação muda e, se você for escritor, perceberá que seu texto mudará. Você descobrirá que “Ler em Busca de Coragem”, um belíssimo capítulo do livro, é um alento, uma força propulsora para que o escritor não tenha medo de escrever. Que os conceitos mais obtusos como o que diz que um livro deve ser escrito de um único ponto de vista, foram destroçados pelos grandes escritores e não se sentirá só, quando sua história de ficção parecer absurda, pois lembrará que a Metamorfose, Franz Kafka, com seu homem barata, nunca teria passado em uma Oficina tradicional de escrita.
O que se apreende ao final desta leitura?
- Ler é ato de amor. Escrever é a concretização deste ato.

O Grande Gatsby

BESTBOLSO
FITZGERALD, F. SCOTT / MUGGIATI, ROBERTO
Preço R$ 17,90

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