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13 de jul de 2011

Revisitando Pergunte ao Pó

Pergunte ao Pó, do norte americano John Fante me foi presenteado quando era apenas uma jovem de 22 anos. Recém saída de uma faculdade de propaganda, trabalhando na área de criação e texto, provida de todos os sonhos e fantasias que alguém nesta idade se permite ter.
É claro que o texto de alguém que tem 22 é bem diferente de outro que aos 40 trabalhou arduamente em jornais e revistas do país. Experiência, ao contrário que muitos pensam, conta e muito.
Pergunte ao Pó foi um presente do amigo e jornalista extremamente talentoso, Jorge Pinheiro, que atento a minha paixão pelo texto tentou orientar-me no caminho, que só hoje percebo em sua essência:- o romance de ficção.
Em sua belíssima dedicatória ele escreveu:
“Eis um texto super atual, pois, embora tenha sido escrito em 1939. Para nós de texto, é um prazer.”
Só hoje entendo a dimensão deste prazer. Eu não conhecia o autor e como todo recém formado, tinha certa aversão a literatura americana (hoje, ao lado dos ingleses eles são a minha grande paixão). Na época havia tentado arduamente ler Ernest Hemingway, mas achava chato demais, rebuscado em excesso com detalhes corriqueiros de um cotidiano que para mim era completamente desconhecido e indiferente.
Confesso que a introdução do poeta Paulo Leminski contribuiu para que realizasse a leitura. E, depois de ler as duas primeiras páginas da história, um pequeno lapso de tempo real se passou até que suspirando de emoção chegasse ao final.
Foi ai que conheci Arturo Bandine, um jovem americano descendente de Italianos que mora em Los Angeles, e sem um tostão no bolso. Seus pertences são poucas peças de roupa, uma máquina de escrever e cópias de seu único conto publicado.
Lá ele conhece a garçonete mexicana, Camilla. Bandine passa a frequentar o bar no qual Camilla trabalha. Esses encontros são sempre recheados de brigas e ofensas que, na maioria das vezes, são reflexos da situação social que ambos vivem: - estrangeiros em um país com tendências a xenofobia. É bom lembrar que a história está ambientada na década de 30.
Bandine é um jovem que se atormenta pela imagem que construiu de si mesmo, um escritor que deseja ser famoso e rico, mas a única coisa de real que possui são seus parcos pertences e seu único conto publicado.
Ele não conhece ninguém e muito menos desperta interesse em quem quer que seja. Quer possuir muitas mulheres, mas têm medo delas, a ponto de assustar-se com as investidas de Camilla. A verdade nua e crua é que Arturo Bandine é um homem virgem.
Desesperado, sem nenhum dinheiro no bolso ele escreve para o editor que publicou seu conto, toda sua angústia, tristeza, desalento e desventuras na desastrada tentativa de ser escritor. Então a sorte sorri para ele. O editor publica sua carta, retirando apenas a saudação e o final dela, como se fosse um conto e envia a seguinte carta:
“Prezado senhor Bandini: Com sua permissão, removerei a parte inicial e o fim de sua longa carta e a publicarei como um conto em minha revista. Parece-me que o senhor fez um belo trabalho aqui. Acho que As Colinas Perdidas de Outrora serviria como um excelente título. Meu cheque vai anexo. Sinceramente seu, J.C. Hackmuth”.
Então, ele conhece Vera, uma mulher misteriosa que some de sua vida da mesma maneira que apareceu – repentinamente. No entanto Vera promove em Bandine uma mudança tão forte que o leva a escrever um romance sobre ela, que é imediatamente publicado pelo seu editor. Seu sonho começa a se realizar.
Até hoje me lembro da impressão que a trama me provocou. Primeiro uma sensação de estranhamento, surpresa. Fante descrevia um mundo que eu nem imaginava existir. Naquele momento eu era o Bandine da vida real que precisava sair ao mundo em busca de vivência. Talvez por isso, só por isso, naqueles tempos nunca me imaginei como escritora.
Hoje, ao reler Pergunte ao Pó, a sensação é outra. Não mais o estranhamento. Em seu lugar surge o prazer. As construções das frases, da trama, do “fio condutor da história” nos levam a se deliciar com tamanha capacidade, com tamanha ousadia para quem escrevia nos “recatados” anos 30, que fica impossível descrever o talento criativo de Fante.
A tradução de Paulo Leminski dispensa qualquer comentário. Não li a tradução atual, portanto não farei comparações. Há também um prefácio magnífico do autor norte americano Charles Bukowski.
Independentemente de você, leitor, encontrar ou não esta edição que estou falando, John Fante é prazer garantido em qualquer tradução para quem ama se distrair com a literatura e para quem faz, ou quer fazer dela, sua ferramenta de trabalho.

Foto no topo do texto: Capa da edição esgotada da Editora Brasiliense
Foto no final do texto: Capa da Edição Atual – Editora José Olympio

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