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10 de dez de 2011

Um anjo para Anita

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Imagem sem identificação de autor. Fonte Google Imagens

Anita puxou a saia da mãe um montão de vezes e ela nem se deu ao trabalho de olhar. Estava em meio às compras de presentes em uma loja atolada de gente. Os presentes eram mais importantes que a filha.

- Mamãe! – chamava a insistente criança.

A mãe olhou zangada, blasfemou algumas palavras muito rudes e continuou a disputar lembrancinhas enquanto a menina com os olhos encharcados de lágrimas observava a mãe e a porta da rua.

Anita soltou das mãos da mãe, que a esta altura da loucura consumista nem percebeu, e foi em direção a porta.

- Oi – disse em uma voz infantil e chorosa – Você é um anjo de verdade?

Um homem alto, forte, de olhos bem claros e cabelos castanhos pelo ombro, ostentava asas alvas e transparentes para a maioria das pessoas que passavam por ele. Só Anita conseguia vê-lo. Abaixou-se para conversar com a menina.

- Oi Anita, sou de verdade.

- Então você pode realizar um pedido?

- Vai depender muito do que você pedir – olhou carinhosamente para ela – o que deseja?

Ela olhou bem para ele, deu um suspiro dolorido e passou as costas das mãos nos olhos para enxugar as lágrimas.

- Eu quero que o papai e a mamãe gostem de mim.

O anjo olhou para ela com tristeza, observou a mãe que ainda não havia percebido o que acontecia com sua filha, ponderou muito.

- Anita, isso é impossível. Papai e mamãe não conseguem fazer isso com você.

- Então eu quero alguém que goste de mim – falou com as mãozinhas na cintura e o rosto triste.

- Você tem certeza? – o anjo olhou para ela com dor, mas sabia exatamente o porquê de estar naquele lugar. Ele tinha que levá-la.

- Tenho. – olhou para ele com doçura. – Não vou chorar nem ficar triste. Acho que papai e mamãe ainda não entenderam...

- O quê? – O anjo interrompeu a menina, espantado com a declaração.

- Ah! Anjinho. – sorriu. – Papai e mamãe não podem cuidar de mim... eles não sabem cuidar nem deles. – olhou para ele inquisitiva. – Você vai me levar?

- Vou. – O anjo abriu um sorriso iluminado. - Você sabe para onde?

- Sei. – riu. – Lá naquele lugar que eu estava antes de vir aqui. É divertido. – olhou carinhosamente para o anjo. – Eu sei que eu vou voltar depois, então... não vou ficar triste.

- Você quer ir agora ou quer esperar o Natal?

- Agora. Estou muito cansada.

- Então vamos. – Pegou nas mãos de Anita, colocou-a no colo e desapareceram rindo, não sem antes a menina perguntar qual era o nome do anjo.

Na loja, uma senhora idosa que observava algo que ninguém via gritou desesperada quando viu a menina cair no chão. A mãe nem olhou até que a mulher a sacudiu.

Anita estava morta.


Soraya Felix
09/12/2011

2 comentários:

Desafio fora do padrão disse...

É uma historia que nos leva a refletir. Eu, as vezes, presencio no seio de minha familia, situações onde o lado material vem na frente do lado emocional. Creio que acontece isso em todo lugar. Agora, o amor filial tem uma força maior que os outros amores, se posso dizer assim. A necessidade de atenção, que você mostra no seu conto, também está presente no nosso cotidiano e esta talvez seja o maior desequilibrio do ser humano. Um beijo, um afeto, um gesto de carinho, no momento certo, é o antidoto para curar muitas feridas ao longo da vida. O tempo fisico passa, mas o momento de afeto fica eternizado.
Parabéns, Soraya. Gostei muito da publicação
Luis Antonio

Anônimo disse...

Obrigada por comentar. Infelizmente vemos este tipo de situação todos os dias nas ruas, nos telejornais. O mundo está valorizando demais o material e esquecendo de sentir.
Soraya