Pular para o conteúdo principal

As Memórias Perdidas de Jane Austen

proibido a reprodução sem citar a fonte

Autor: Syrie James
Tradutor: Claudia Mello
Editora: Record
Ano de Lançamento: 2013
Número de páginas: 320
Avaliação Prosa Mágica: 8

Confesso que nunca fiquei tão perdida diante do prazeroso trabalho de resenhar um livro. Talvez perdida não seja a palavra exata, seria melhor perplexa. A história é tão verossímil e ao mesmo tempo burlesca que torna impossível um julgamento isento.
As Memórias Perdidas de Jane Austen da autora norte-americana Syrie James é um livro construído com base nos romances da escritora Jane Austen e parte de suas memórias. Só que Syrie nos dá muito mais.
A autora consegue ser ao mesmo tempo genial e simplória; criativa e totalmente comum. Em alguns momentos a história é banal demais e em outros, extremamente contundente. Por isso é difícil definir.
Uma pergunta permeará sua leitura: - Este livro é um romance ou uma biografia? – Sim, ele é um romance, mas durante a leitura você terá a impressão que é uma biografia, de tão real. E neste ponto que esta a genialidade da escritora.
Por outro lado, o excesso de referências, mesmo que justificadas, irrita. Não havia a necessidade de citar tantas vezes “Orgulho e Preconceito” e “Razão e Sensibilidade”. A trama por si só já nos remete aos dois romances da autora real. Não havia a necessidade de fazer expressamente a comparação dos personagens da trama de Syrie com a de Austen, não da forma expressa como foi realizada.
Há uma questão interessante que permeia a obra: - O que você seria capaz de fazer por amor? – A resposta de Syrie pode frustrar o leitor, mas não deixa de ter um apelo emocional forte para o lado caridoso e “bem comportado”.
Os amantes da prosa da escritora Jane Austen terão neste romance todas as referências a obra dela, com uma pitada do talento de Syrie, que muitas vezes parece ser a reencarnação da própria autora. É claro que isso é um exagero. Syrie é na verdade uma grande fã e pesquisadora da obra da autora, e isso se reflete claramente em sua escrita.
Agora, se você não sabe da impossibilidade do Sr. Ashford na vida da escritora real, você acreditará que ele existiu, já que o personagem é uma mistura bem feita do Sr. Darci (Orgulho e Preconceito) e Edward (Razão e Sensibilidade). Pena que Syrie não foi generosa e deu outro fim a este romance. Eu teria feito diferente.
Os últimos capítulos são de tirar o fôlego. Não dá para respirar enquanto o livro não termina e quando você chega lá no fim, tem vontade de mudar a história. Isso é ruim? – Não. Eu sempre acreditei que um bom romance é feito de contradições. Por que a vida é feita de contradições.
É interessante pensar que Jane Austen tenha vivido um amor tão forte e contundente. Isso explicaria a maestria de sua pena ao descrever casais como Elizabeth e Darci. Tem profundidade, tem sentimento, tem conexão com a sociedade que a autora Jane Austen viveu.
Se você é fã da autora, vale a pena ler este livro. Talvez por que Memória Perdidas seria sem sombra de dúvida, a biografia que gostaríamos de ler na vida real; ou talvez por que você possa vislumbrar em um só volume trechos magnífico de Jane Austen (Esqueça os excessos).
O que eu mais gostei na trama? – O processo do “tornar-se escritora” da Jane Austen da ficção. É um retrato fidedigno do processo que boa parte dos escritores passam em inicio de carreira. As dúvidas, as incertezas, as mudanças que não tem fim...
Jane Austen se tornou imortal por que soube retratar a realidade com tal fulgor e profundidade, que sua alma permaneceu em suas obras. Ela foi original, inovadora.
Talvez Syrie encontre em si mesma, motivos para escrever um romance totalmente seu, sem referências. Talento para isso ela possui de sobra.


Comentários

Camila disse…
Olá, Soraya!!
Acredita que nunca li um livro da Jane Austen?! É um crime, né?!
Mas sempre que leio algo relacionado a ela fico doida para ler seus livros!
Beijos
Camis - Leitora Compulsiva
SORAYA FELIX disse…
Camila, não acredito!! Jane Austen é maravilhosa. Leia Orgulho e Preconceito, mas por favor, não leia a tradução da Landmark que está lamentável. Creio que a da Penguin está muito boa, Para quem nunca leu nada dela, este é um dos melhores livros para começar. Adoraria ver uma resenha dele no seu blog. bjs

Postagens mais visitadas deste blog

Setembro

Autor:   Rosamund Pilcher Tradução: Angela Nascimento Machado Editora:  Bertrand Brasil Número de páginas: 462 Ano de Lançamento: 1990 Avaliação do Prosa Mágica:   10                         É uma história extremamente envolvente e humana que traça a vida de uma dúzia de personagens. A trama se passa na Escócia, e acontece entre os meses de maio a setembro, tendo como pano de fundo uma festa de aniversário que acontecerá em grande estilo. Violet, que me parece ser a própria Rosamund, costura a relação entre as famílias que fazem parte deste romance. Com destreza e delicadeza, a autora   nos conta o cotidiano destas famílias, coisas comuns como comer, fazer compras, tricô, jardinagem. Problemas pessoais como a necessidade de um trabalho para complementar a   renda e outras preocupações do cotidiano que surpreendem pela beleza que são apresentadas. É um livro em camadas, que pode ser avaliado sobre vários aspectos que se complementam. Pandora, por exemplo, é o

Tudo vai passar

Diante desta desgraça geral, com tantas mortes no mundo e no Brasil, pode parecer estranho um blog falar de leitura, de romance, de ficção, de sonhos. Pode ter a certeza que não é. Do que é feita a vida, senão de sonhos tornados realidades? O que seria agora, dos milhões de italianos que estão em isolamento total em suas casas se não fosse o sonho, a esperança? - Tudo vai passar. Uma das maneiras mais ricas de se passar um momento como esse é a leitura.   O livro é a porta aberta para o mundo que não podemos caminhar; são os abraços que não podemos dar; são os familiares que não podemos encontrar; são pessoas diferentes com as quais podemos dialogar, mesmo que em um primeiro momento pareça que estamos exercendo um monologo. Você pode optar por dialogar com escritores mais contemporâneos, que nos apresentam uma linguagem atual. Talvez uma conversa regada a saquê com Murakami com “histórias bizarras que gravitam no limite do realismo fantástico” como explica Felipe Massahiro.

Prosa de Quarentena

Li muito este ano, muito mais que li no ano passado inteiro, mas venho sofrendo de inconstância literária, o que significa que muitas vezes leio 500 páginas em 2 dias e outras, levo dois meses para ler 100. Neste exato momento estou na segunda alternativa, o que significa que a leitura de O Silmarillion segue devagar. Confesso que deixei de lado a paranoia de me obrigar a ler um monte de livros por causa do blog. Leitura é puro prazer, é amor ao texto, é observar as entrelinhas, e se deliciar com as formas como o autor mistura e brinca com as palavras, e isso não pode ser feito em um ritmo frenético. Posto esta explicação necessária, seguimos com o tema de hoje. A pandemia provocada pelo coronavírus no mundo e no Brasil. Entrei de quarentena (Isolamento Social) no dia 23 de março, junto com a minha amada cidade São Paulo. Até o dia 14 de abril trabalhei como uma condenada na preparação de aulas para os meus alunos – fato que não reclamo, pois confesso ter gostado muito desta