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24 de jun de 2014

A Sombra do Vento

Autor: Carlos Ruiz Zafón
Tradutor: Marcia Ribas
Editora: Suma de Letras
Ano de Lançamento: 2001
Ano de Lançamento Brasil: 2007
Número de páginas: 400
Avaliação do Prosa Mágica: 10


“-(...) cada livro, cada volume que você vê, tem alma. A alma de quem o escreveu, e a alma dos que leram, que viveram e sonharam com ele. Cada vez que um livro troca de mãos, cada vez que alguém passa os olhos pelas suas páginas, seu espírito cresce e a pessoa se fortalece.” Pág 6.

Começo esta resenha com um texto, e por que não dizer, com a alma de quem soube transformar em palavras o grande e imenso amor que dedicamos aos livros.
Confesso que é impossível a isenção em avaliar a Sombra do Vento, não só pela genialidade do autor, mas também por que sou escritora e o livro fala um pouco de nós escritores, seres ingênuos com mania de Deus a criar e espalhar seus personagens pelo mundo, sem pedir licença para ninguém, com o coração apertado e a alma transbordando uma alegria que só as mães conhecem.
Carlos Ruiz Zafón consegue o que parecia impossível nestes tempos comerciais, tempo de livros temáticos a nos afogar em um mar que muitas vezes beira  a mesmice. Zafón aproxima a genialidade com o best-seller, dois gêneros que os “intelectuais” insistem em dizer que não podem coexistir.
Em A Sombra do Vento, primeiro livro da tetralogia livre “Cemitério dos Livros Esquecidos”, Zafón nos apresenta a metáfora livro/vida. Você percorre as páginas sem saber, muitas vezes, se o que lê é sobre o livro que está em suas mãos, se é sobre o livro que Daniel tanto adora, ou se tudo não passa da fértil imaginação do autor-personagem Julian Carax.
Se você não conhece a história, saiba que não é fácil compartilhá-la em uma única resenha. Trata-se de um garoto, Daniel, cujo pai o leva a uma brande biblioteca, um lugar sagrado e escondido, onde vivem milhares de livros ávidos para que sejam lembrados. A Biblioteca é um depósito de livros abandonados. O menino escolhe um livro para tomar conta – A Sombra do Vento. – um exemplar de um autor desconhecido cujo talento é imediatamente reconhecido por Daniel.
A obsessão do menino pelo autor é tão grande que ele parte em busca de Julian Carax e acaba mergulhando em um mundo perigoso, nas qual um louco destrói todas as obras do Julian.
Daniel descobre que o exemplar que possui é único. E neste instante que ele percebe que seu destino e de todas as pessoas que ama estão conectados ao mistério de Carax.
O Cemitério dos Livros esquecidos, bem como A Sombra do Vento, parecem ser uma metáfora da solidão, das pessoas que caem no esquecimento e só ressurgem quando alguém lhes dá uma côdea de atenção e carinho.
Zafón parece comparar as pessoas aos livros e vice e versa, e com isso o leitor passa a acreditar que em cada livro que lê há uma vida real, existindo em alguma dimensão paralela a nossa.
No entanto, Zafón não tem medo de escrever, de abrir feridas, de fazer críticas. Você percebe isso na crueza do “assassinato” de Penélope, nas frases e tiradas de Fermin (Meu personagem predileto) e no completo desastre de vendas das edições de Carax, como uma alusão clara ao paradigma do mercado editorial cuja qualidade literária se mede pelas cifras dos milhões e a literatura genial necessitando da benevolência de alguns benfeitores, ao puro estilo Dom Quixote.
Os contrastes vida/morte, sombra/luz, solidão/amizade, amor/ódio desenham-se nos parágrafos que parecem esculpidos, entalhados por um cinzel mágico, capaz de juntar palavras que nos enfeitiçam e prendem.
Eu já havia resenhado o livro Luzes de Setembro, textos da juventude de Zafón. E o que se percebe em A Sombra do Vento é o resultado de um amadurecimento pessoal e  brilhantismo que só os anos podem nos dar.
E não é só. Zafón parece gostar de referenciar personagens antigos nos livros novos que escreve. Eles retornam com outro nome, um pouco mais maduros, em um contexto diferente, mas claramente referências a pessoas, que talvez o autor não quisesse se desapegar.
Zafón não pode ser lido como um fast food, talvez por isso não tenha encontrado muitas resenhas em blogs brasileiros. Seus livros devem ser degustados aos poucos, sem pressa. Cada palavra, cada linha, cada parágrafo contém uma informação importante que não pode ser relegada a segundo plano, pulada como se fosse excesso. Em Carlos Ruiz Zafón não se encontra excessos.
A Sombra do Vento traz a tona uma período difícil enfrentado pela Espanha que engloba o pós Guerra Civil Espanhola, e o Governo Franco, de foi até 1975, um governo excessivamente repressivo que a meu ver foi muito bem representado na trama pelo personagem Fumero.
Não quero me alongar demais. A Sombra do Vento é um livro que pode ser analisado por vários aspectos: - político, linguístico, literário, e mesmo assim não esgotaríamos a riqueza que a obra nos apresenta.
Desafio o leitor a fazer uma viagem neste livro, e depois voltar aqui no blog e me  contar suas impressões. Eu associo A Sombra do Vento a um trecho da poesia do autor espanhol Antonio Machado:
“Caminhante, não há caminho. Faz-se caminho a andar.”

Quem já leu Carlos Ruiz Zafón sabe exatamente o que estou dizendo.


Tetratologia:
A Sombra do Vento
O Jogo Do Anjo
O Prisioneiro do Céu.


* Sugestão de Guia para Clube de Leitura (Há spoilers)

1. O que é o Cemitério dos Livros Esquecidos?
2. A Sombra do Vento é um livro dentro de um livro. O que você achou da correlação entre a história de Julian Carax com a do jovem Daniel?
3. Você conseguiu associar os personagens da vida de Daniel com a de Carax? Quem é quem nesta brincadeira?
4. O autor criou uma metáfora dando alma aos livros. Você acredita que um livro pode ser realmente esta espécie de ‘alma” do autor???
5. Por que Daniel se esquece do rosto da mãe e apenas vai lembrá-lo na hora de sua morte?
6. Por que Daniel se interessou tanto pelo livro de Carax? Você acreditar que o autor quis fazer uma ligação, como se eles tivessem sido predestinados a se parecerem?
7. O que você achou de Carax e Penélope serem irmãos? Não pareceu excesso de drama, como nas novelas, ou talvez uma associação aos mitos gregos? Enfim, a solução dada para o autor foi criativa?
8. O que mais te marcou na leitura do livro?
9. Qual personagem você escolheria como o ideal, aquele que poderia ser tranquilamente seu amigo?
10. O que você mudaria no livro?

3 comentários:

Roberta disse...

Ótima resenha! Estou adorando o livro. O Fermin, também é um dos meu personagem prediletos. bjs

Camila disse...

Oi, Soraya.
Já tive o prazer de ler esse livro e o texto do Zafón me cativou. Li também O Jogo do Anjo e estou com outros livros dele aqui na estante, esperando por uma chance!!
Adorei as sugestões de discussão!
Beijos
Camis - Leitora Compulsiva

Soraya Felix disse...

Oi Camila,
Ainda não li O Jogo do Anjo, mas já me falaram que é fantástico.
Vou tentar publicar as sugestões de discussões em todas as resenhas.
Bjs