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2 de jul de 2014

Entrevista com Julie Bourbeau

O que seria da vida de um leitor sem o tradutor? Eu comecei o texto de uma entrevista desta forma no ano passado, e a pergunta nunca esteve tão forte em minha cabeça. Apaixonada pelo livro O Estranho Mistério das Quartas-Feiras, de Julie Bourbeaum publicada pela Editora Pensamento e resenhado aqui, comecei uma busca por informações sobre a autora. Não achei o quanto esperava, mas me deparei com esta entrevista publicada em 2012 pelo blog “So I’m Fifty” da Pam Torres. Não perdi tempo e escrevi para a Pam pedindo autorização para traduzir, e qual não foi minha surpresa semanas depois receber uma resposta positiva.
Foi ai que os meus amigos tradutores me vieram à cabeça. É muito fácil entender um texto em inglês, mas transformá-lo em algo legível é tarefa para profissionais, por isso me desculpo por antecipação pelas falhas cometidas.
Nesta entrevista, a autora surpreende com suas respostas soltas, verdadeiras e a simplicidade ao contar como começou a escrever. O nascimento de O Estranho Mistério das Quartas-feiras é recheado de humor, assombro e confusão, e é exatamente esta profusão de sentimentos que ela passa na trama nos trazendo um romance repleto de mistérios que nos faz rir e se emocionar ao mesmo tempo, nos tirando o fôlego até a última linha.
Julie Bourbeau é genial e espero que venha ao Brasil para nos dar a oportunidade de entrevistá-la pessoalmente, pois eu tenho no mínimo mais umas dez perguntas sobre a trama que gostaria de discutir. Por hora, vocês ficam com a entrevista que ela deu em 2012.
Abraços,


1. Por que você escreve para crianças? E qual foi sua inspiração para criar seu livro de estreia?
Julie: Nunca tive a intenção de escrever para crianças - na verdade, se você tivesse me dito há dez anos que eu iria escrever um livro para crianças, eu nunca teria acreditado. O Estranho Mistério das Quartas-feiras surgiu quase por acidente. Eu tinha acabado de me mudar para a Espanha com o meu filho pequeno, e estava com dificuldade em combinar a maternidade recente com o choque cultural. A Sesta na Espanha (o costume de fechar empresas e escolas por várias horas para um período de almoço estendido) foi particularmente difícil para mim, porque eu nunca fui capaz de ajustar meu timing a ela. Meu filho sempre acordava de seu cochilo precisamente no momento em que todo o bairro, e todas as lojas que eu precisava visitar, literalmente fechavam suas portas durante três horas.
Em uma quarta-feira a tarde, eu estava empurrando o carrinho com meu filho e me sentindo um pouco mal-humorada e solitária, porque nada estava aberto e não havia ninguém por perto.
Eu tive um acesso de mau humor e ficou nítido que aquele era uma plano arrepiante que mantinha minha visinhança deserta durante o meio do dia e da semana. Para entreter-me, comecei a criar  uma história engraçada e arrepiante para explicar por que uma cidade tão encantadora ficasse totalmente fechada durante o meio da semana. E ... nasceu O Estranho Mistério das Quartas-feiras! E durante o processo eu descobri que gostava de escrever para crianças.

2. Conte-nos um pouco sobre você e como se tornou uma escritora.
Julie: Eu não comecei a escrever até alcançar os meus trinta anos, e suponho que tenha sido um início tardio. Eu era uma mãe recente, que vivia no exterior, e me vi sem emprego pela primeira vez desde que era adolescente. Tive a sorte de usar a oportunidade para  fazer um exame de consciência - para descobrir o que eu realmente queria fazer com a minha liberdade. Eu fui uma leitora ávida ao longo da vida (na verdade, o meu primeiro trabalho já estava em foi em uma livraria), então eu decidi me dar uma chance. Depois que eu descobri o quanto eu amava escrever, nunca mais olhei para trás. Eu só desejei ter descoberto isso há uma ou duas décadas atrás!


3. Fale-nos sobre o seu processo.
Julie: Eu me encaixo entre as escolas de escrita por inspiração e da trama disciplinada. Eu comecei O Estranho Mistério das Quartas-feiras com pouco mais de uma ideia sobre o cenário e a premissa (Uma aldeia no meio do caminho até o Monte Tibidabo que é forçada a parar todas as quartas-feiras.). Os personagens vieram em seguida - Max é essencialmente o garoto que eu imagino que meu (adorável) filho travesso se tornará em alguns anos. Só depois disso a história real começou a tomar forma em minha mente.

Meu próximo livro, “King of Nowhere”, que será lançado em 2014, evoluiu de forma similar. Eu tinha apenas uma frase de abertura e uma única cena breve, em mente quando comecei a escrever. Quando eu já tinha escrito um par de capítulos parei para traçar um rascunho - basicamente apenas o começo, o meio e o fim. E quando eu começo um novo capítulo eu gasto algum tempo para descobrir o que eu quero realmente dizer - tanto em termos de desenvolvimento dos personagens como do enredo.


4. Como é um dia típico de trabalho para você?
Julie: Um caos disfarçado, ou talvez isto descreva minha vida no geral, já que agora tenho dois filhos com muita energia dentro de casa! Honestamente, eu preciso de duas coisas para escrever: silêncio e café. Eu gostaria de ser um desses escritores que podem trabalhar duro enquanto a vida se desenrola em torno deles, mas eu não posso. Isso significa que eu tenho que aproveitar esses momentos de silêncio quando e como puder. Talvez quando os meus filhos estiverem um pouco mais velhos eu possa conseguir ter alguma coisa parecida com "típico", mas por agora eu estou totalmente sem rotina ou estabilidade.

5. Onde é o seu lugar favorito para escrever?
Julie: Escrevo enquanto estou sentada em uma espreguiçadeira que está no canto da minha sala de estar. Meu laptop está no meu colo, e sempre tenho uma xícara de café por perto. A posição não é ideal para a saúde da coluna, eu tenho certeza, mas eu nunca fui capaz de escrever em uma mesa adequada. Meu cantinho tem muita luz natural e uma vista para uma área arborizada, por isso até que minhas costas se revoltem, eu continuarei a escrever lá!


6. O que é mais desafiador para você, criar ou publicar uma história? O que você gostaria de ter conhecido antes?
Julie: Eu não tinha ideia da demora na produção de um livro. Três anos se passaram entre o momento em que meu livro foi adquirido pelo meu editor e a data da publicação. Eu fiquei terrivelmente impaciente nesta espera, mas finalmente ela chegou!

7. Qual foi o melhor conselho sobre o ato de escrever que você já recebeu?
Julie: O conselho que eu mais precisava ouvir (e que na maioria das vezes preciso relembrar) é simplesmente BIC (Bunda na cadeira). Eu me distraio facilmente com blogs, noticias do mercado editorial, grupos de escritores on-line, etc - coisas que estão relacionadas com a escrita, mas que me afastam de digitar “Fim”. Não há como escapar do fato de que um livro requer muitas e muitas horas parada em frente a uma tela, digitando e ... sem permissão para acessar a Internet!

8. Você está trabalhando em um novo projeto? Você pode nos dizer sobre isso?
Julie: Sim! KING OF NOWHERE é um romance teen sobre a filha adolescente do líder de um país sem nome no Oriente Médio. Quando o resto de sua família foge para os EUA, ela é forçada a encarar o choque cultural, a pobreza e as verdades cada vez mais desconfortáveis ​​sobre seu país de origem e sobre o legado de seu pai. O livro é baseado em fatos reais.

9. Que conselho você daria a outros que escrevem para crianças?

Julie: Leia o livro em voz alta para uma criança que não tem medo de criticar. É impressionante como rapidamente você vai tropeçar em frases estranhas e cenas de ação muito chatas quando você tem uma criança de 7 anos revirando os olhos ou bocejando enquanto você lê para ela!

AGRADECIMENTOS A PAM TORRES QUE ME AUTORIZOU A TRADUZIR ESTA ENTREVISTA.


Pam Torres - So I'm Fifty

Um comentário:

Camila disse...

Oi, Soraya.
Adorei a entrevista e ainda fiquei pensando sobre a questão dos tradutores... É uma pena que pouca gente perceba a importância das traduções. Traduzir uma história é muito mais que usar o Google tradutor. É preciso muito estudo e muita dedicação para traduzir bem uma história, sem deixar a peteca cair!!
beijos
Camis - Leitora Compulsiva