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22 de jul de 2016

Contando um conto

Imagem Google - autor desconhecido.

O nome deste post parece bem estranho. Olhando uns arquivos antigos encontrei este rascunho de conto que escrevi para participar de um concurso. É claro que eu nunca enviei o texto. Quem conta um conto tem que ter a veia de um grande romancista e a concisão de um jornalista. Confesso que não tenho concisão suficiente para isso, e todas as minhas tentativas de conto acabavam virando primeiro capítulo de um romance, que ficava esquecido nas pastinhas do meu computador. Se não me engano, O Supressor de Almas surgiu em um momento onde a febre era falar de anjos decaídos e eu tentei escrever algo no gênero.
O Supressor de Almas não é um conto acabado, mas a tentativa de fazer um deles que virou a ideia de um romance e que talvez nunca saia do papel, por isso resolvi compartilhar com vocês. A estória trata de nossas pequenas carências que muitas vezes podem nos colocar nas piores situações possíveis. Espero que você goste e divida comigo sua opinião sobre este rascunho.
Boa leitura.

Thanatos


O Supressor de Almas


Quando Anita saiu de casa naquela manhã, nunca poderia ter imaginado que seu dia terminaria depois de três longos meses. Era véspera de Natal e havia alguns presentes que ainda precisavam ser comprados.
O ano tinha sido duro para Anita. Projetista desenhista de uma grande empresa fabricantes de trens, ela tinha enfrentado todo tipo de preconceito e má vontade da chefia. Mesmo acostumada a isso, já que área de engenharia sempre foi composta por homens, e as poucas mulheres que se aventuravam nela sofriam toda sorte de preconceito e assédio, Anita parecia prever um futuro nada promissor em seu trabalho.
Aquela manhã estava particularmente fria, apesar do calendário indicar o início do verão. Anita vestia um conjunto jeans bem leve, mas usava uma echarpe rosa que cobria sua frágil garganta. Era um hábito de criança, que parecia ter uma razão mesmo que a própria garota não encontrasse uma explicação.
Ao virar a primeira esquina pode ver o grande shopping vestido de natal. Não era o seu destino, já que o pouco dinheiro que trazia só deixava uma única opção: - as lojas de produtos baratos vindo da China, quinquilharias de última qualidade, mas que Anita sempre garimpava até achar algo que valesse a pena comprar.
Virou à direita duas esquinas depois, quase em frente ao shopping. A loja de quinquilharias ficava a apenas três quadras dali. A rua estava deserta, para espanto dela, e um vento estranhamente cortante fez com que Anita fechasse mais a jaqueta. Encolhida e blasfemando pelo fato de não ter pegado um casaco mais pesado, ela foi surpreendida por uma estranha sombra que passou. Olhou de um lado e do outro e não viu nada, mas percebeu que a sombra entrou por uma pequena porta de uma casa desengonçada que pareceu aterrissar ma rua, do nada.
Depois de olhar para todos os lados, ela decidiu ir atrás da pequena casa. Entrou temerosa, cheia de medos e de dúvidas. Mas, o clima quente e aconchegante, cercado pelo aroma de café recém-passado, pareceu relaxar todos os seus ossos. As dúvidas sumiram e a ideia de um café pareceu aliviá-la. – Por que não? – pensou. Que mal fará uma parada para um café?
Decidida, foi até o balcão, onde um estranho homem com olhos de uma tonalidade estranha sorriu. Seus cabelos longos e loiros pareciam dançar em seus olhos, que brilhavam.
- Um café senhorita? – Ele perguntou com uma voz quase hipnótica. Anita não percebeu, mas naquele instante já não tinha mais domínio sobre o que pensava.
- Sim, um café simples. – Sorriu.
- Fique a vontade. Pode colocar suas coisas ali. – Apontou para um cabideiro que estava tão atolado de casacos, bolsas e pastas, que desabaria qualquer momento. Anita achou estranho por que não havia ninguém naquele lugar, e o homem como se adivinhasse seus pensamentos falou.
- E, por favor, não se esqueça de pegá-los ao ir embora. Já não há mais espaço nele por culpa das pessoas que são distraídas.
Anita riu. Não esqueceria, com toda a certeza. Foi até o cabideiro e tirou o casaco, a bolsa e dependurou-os lá. O homem do outro lado do balcão retrucou enquanto fazia o café em uma máquina expressa de última geração.
- Pode deixar a echarpe se quiser, fique tranquila que não será a responsável pelo desabamento desta bagunça.
Anita hesitou, sem entender porque, mas obedeceu. O lugar estava quente demais para o uso daquele acessório. Ao deixar a delicada echarpe lá, pareceu ouvir sons, murmúrios doloridos e pesarosos, mas afastou logo este pensamento.
Apesar do calor, o lugar soava frio e sem vida. Era como se lá dentro as pessoas não tivessem alma. Ela se debatia tanto com estes pensamentos que nem percebeu a aproximação do homem.
- Pensamentos ruins atraem coisas ruins. – Disse entre um tom sério e irônico.
- Você lê pensamentos?
- Não, toco almas.
Um calafrio percorreu a espinha de Anita.
- Almas?
- Não. - Ele respondeu sorrindo enquanto colocava o café em cima da mesa. – Dá para conhecer a pessoa pelas expressões de seu rosto.
- Ah! – foi o que ela disse.
- No entanto, as pessoas se esquecem de que possuem uma alma e que algumas delas possuem uma energia infinita.
- Como assim?
- Alma e energia são a mesma coisa. Você entende isso?
- Confesso que nunca parei para pensar sobre o assunto. Religião é um tema que não me interessa muito. – Anita estava com vontade de sair correndo daquele lugar. Era como se um grito interior pedisse que ela corresse e não olhasse para trás.
- Você está amedrontada?
- Sim. – Ela sacudiu a cabeça assustado com sua própria resposta. – Quer dizer não. Estou um pouco cansada.
O estranho homem olhou em seus olhos, e Anita pareceu entrever amor.  Ao fazer isso, ficou dominada por uma estranha sensação de prazer que ia aumentando à medida que o homem se aproximava dela.
- Você parece ser uma alma muito iluminada. Se deixar que eu toque em seu pescoço, poderei ajudá-la a relaxar, a tirar esta dor que a consome.
Anita se assustou quando ele falou da dor. Havia sim uma dor profunda em seu ser, mas não era física. Além disso, nos últimos cinco minutos uma estranha dor pulsante em seu pescoço a estava irritando. Era estranho permitir que alguém desconhecido a tocasse, mas quem sabe não seria bom? Há quanto tempo não sentia o toque suave de alguém, o beijo apaixonada e cheio de vontade? Já não se lembrava mais o que era ser desejada e amada. Se deixasse aquele homem a tocar, talvez por pouco tempo, talvez assim sua alma se acalmasse. Afinal, que mal haveria? E depois, poderia se aproveitar um pouco do calor dele.
- Sim.... por favor, seja delicado. – Disse isso em um sussurro. – Qual é seu nome?
- Pode me chamar de Thanatos. Agora deixe-me ver este pescoço.
As mãos frias de Thanatos fizeram Anita pular na cadeira. Era uma sensação estranha e ao mesmo tempo alentadora. Ele introduziu suas mãos no pescoço dela e começou a lentamente massagea-los. Enquanto ele fazia isso um frio, um arrepio corria o corpo de Anita de ponta a ponta. Ela fechou os olhos, a cada segundo sentia mais e mais necessidade dele. Enquanto aquele estranho fazia aquela massagem para lá de ousada, ela podia ouvir palavras saídas dos lábios da Thanatos.
- Isso, se entregue totalmente a mim. Venha para meu reino.
Seu sussuro quente e cheiroso chegava cada vez mais perto e Anita preparou-se para um tórrido beijo. Thanatos encostou seus lábios nos dela e o corpo de Anita pareceu estremecer de prazer. Enquanto isso, as mãos dele permaneciam em seu pescoço. Já totalmente entregue, seus lábios se separaram e ao olhar nos olhos de Thanatos, Anita viu um estranho brilho que foi aumentando e se avermelhando. Não deu tempo de gritar. O homem encostou seu dedo na garganta de Anita e murmurou.
- Eu quero a sua alma e assim seja a minha vontade. – Ela se sentiu sugada e de repente tudo ficou escuro para ela.


Aviso 1: As fotos deste post foram encontradas em uma pesquisa no Google Images. Não encontrei o nome dos autores. Se você conhece o autor destas imagens, por favor me mande uma mensagem para que eu possa dar o devido crédito nelas.

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