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18 de jul de 2016

O Segredo das Coisas Perdidas

Autor:  Sheridan Hay
Tradutor: Paulo Andrade Lemos
Editora:  Nova Fronteira
Número de páginas: 320
Ano de Lançamento: 2008
Avaliação do Prosa Mágica:  10


O Segredo das Coisas Perdidas, da autora australiana Sheridan Hay, é um daqueles livros que você não espera ler até que eles surgem na sua frente e invadem sua alma.
Rosemary Savage, protagonista da trama, é uma metáfora de nossas mentes e vida, e simboliza o processo de amadurecimento que invariavelmente todo ser humano enfrenta.
Jovem, aos dezoito anos ela perde a mãe que tanto amava e impulsionada pela amiga de sua mãe, é enviada a Nova York para ampliar seus horizontes, que são estreitos e ingênuos como o lugar onde vive – Tasmânia.
Já em Nova York, com apenas 300 dólares no bolso, Rosemary vai trabalhar na Árcade, uma livraria de exemplares de segunda mão, uma espécie de país imaginário onde desfilam os mais estranhos e ao mesmo tempo comuns personagens.
George Pike, o dono mal humorado; Walter Geist, o gerente albino, estranho que cai de amores por Rosemary; Oscar, o intelectual, mas indefinido, que desperta na garota uma primeira paixão verdadeira. Tem a caixa Pearl, um transexual de extrema humanidade que marca um contraponto neste país das maravilhas as avessas. Fora da Árcade, Rosemary tem como apoio Lílian, a recepcionista argentina, que tem o filho desaparecido na ditadura que assolou a Argentina.
O grupo, a principio, parece não ter nenhuma conexão, mas aos poucos a autora vai costurando os pedaços interiores de cada um e a conexão que os liga, ora luz ora sombra, aparece e continua sempre presente em seu texto.
A trama toda transcorre em torno de um manuscrito perdido de Herman Melville, um romance sobre o remorso que tira alguns dos personagens da Árcade das sombras e os remete para uma arena indecifrável, na qual bem e mal não é tratado de forma maniqueísta.
O Segredo das Coisas Perdidas é intenso, profundo, de caráter psicológico, que causa estranheza, curiosidade, encantamento.
A perfeição do livro reside na imperfeição dos personagens. A própria Rosemary exemplifica isso quando faz a reflexão sobre a morte. Para ela, as pessoas morrem para nos deixar livres, e referenda a teoria com sua própria história: - Ela não estaria em Nova York e na Árcade se a mãe estivesse viva.  É uma reflexão que não nos deixa, como leitores, desconfortáveis.
Tem algo de mítico na forma como a autora trata dos livros e a trama. Em uma passagem repleta de detalhes e referências, Geist traduz para Rosemary uma inscrição na parede de um colecionador:
“Antes de mim, o tempo não existia. Depois de mim, não haverá nenhum. Comigo nasceu e comigo também morrera.”
A passagem é uma metáfora do se passa na cabeça de Geist, que por ironia da autora fica cego trabalhando em uma loja de livros. Jorge Luis Borges também era cego quando iniciou seu trabalho em uma biblioteca. – Coincidência?
Há Shakespeare espalhado por toda a trama, mas há muito mais de “A Tempestade” do que a própria autora nos conta em “Nota da Autora”.
O livro começa lento, quase no ritmo dos autores e das pessoas que viveram na antiguidade. Aos poucos, juntamente com o crescimento de Rosemary, ele vai se intensificando até atingir o clímax. Mas não se engane.
O Segredo das Coisas Perdidas é para ser degustado aos poucos. Deve ser lido como se você leitor, tivesse todo o tempo do mundo. É como se o próximo livro que aguarda sua leitura estivesse sendo “composto” com os tipos moveis em uma gráfica antiga, cujas folhas precisarão ser unidas manualmente por um hábil artesão. Isso leva tempo.
É uma história para quem ama livros e para pessoas que gostam de ver seres humanos reais retratados em suas páginas.

Confesso que ainda estou perplexa e encantada.

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