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9 de nov de 2016

Harry Potter e a Criança Amaldiçoada

Autor:  J. K. Rowling, John Tiffany, Jack Thorne
Tradutor: Ana Vicentini
Editora:  Rocco
Número de páginas: 352
Ano de Lançamento: 2016
Avaliação do Prosa Mágica:  10 ++


“Tempo, tempo, tempo, tempo”. A música de Caetano Veloso parece se adequar bem a temática do oitavo livro de J.K.Rowling, da série Harry Potter.  É o tempo que se torna o senhor do destino na trama, é no tempo que se desenrola as aventuras mágicas, é o tempo que poderá se tornar a grande e inexorável bandeira do mal.
O livro-roteiro da peça de teatro que estreou em Londres este ano, sob as mágicas mãos de John Tiffany e Jack Thorne, baseado em uma história original de J.K.Rowling, nos leva a vivenciar os dramas que surgem 19 anos depois que Harry e seus amigos venceram a Batalha de Hogwarts.
Harry agora é um bem sucedido funcionário do ministério da magia, casado com Gina e pai de três filhos, dentre eles Alvo Severo Potter, que recebeu seu nome em homenagem a Dumbledore e Snape.
Harry está vivenciando todos os dramas de quem atinge a marca dos 40 anos em sua vida, e com a idade vem todo o peso de um passado difícil, repleto de lutas e de falsas culpas. Além disso, o bruxo vive uma situação inusitada em sua vida, a experiência de ser pai, para a qual não possui nem histórico e nem referencias para se basear. E você tem a impressão que ele está se saindo mal na tarefa.
Do outro lado nós temos Alvo, um adolescente que sofre ao carregar em seus ombros o peso de ser o filho do “escolhido” e ter o nome de duas pessoas geniais. Um peso que, como adolescente, parece lhe fazer mal. Além disso, Alvo não foi escolhido para Grifinólia, e isso o deixa com medo e culpado, como se a qualquer momento ele pudesse se transformar em um bruxo do mal.
Se toda a rebeldia da adolescência não bastasse, Alvo recebe como único amigo Escórpio, o filho de Dracco Malfoy, um menino sensível, inteligente, mas que traz em seu histórico a suspeita de ser filho de Valdemort. A revolta de Alvo pode ser sentida em um crescente ao longo da história. Quanto mais ele se revolta com sua situação, mais ele se parece com o pai.
No entanto, diante destes pequenos dramas familiares e estudantis, as trevas parecem rondar o Planeta novamente, uma ameaça legítima do retorno de Valdemort que assusta não só o Ministério da Magia, como envolve Escórpio e Alvo em uma aventura que eles nunca imaginaram.
Há também a relação tensa entre Dracco e Escórpio. E nela você percebe o quanto a geração dos primeiros oitos livros não amadureceu de forma completa, e como a guerra contra as trevas os afetou de forma definitiva.
Tem um lado genial na trama, que são as reviravoltas do tempo. Há um vai e vem temporal emocionante. É através de um vira tempo que os personagens retornam a um passado distante, na tentativa de consertar algo, mas o tempo, senhor de seu destino, proporciona algumas surpresas para eles e para nós, leitores. Sabe aquela história de “e se...”? Você pode ver o resultado de vários questionamentos deste nível.
A volta no tempo nos leva também a recordações dos outros livros como as cenas do Torneio Tribruxo em "Harry Potter e o Cálice de Fogo", a invasão do Ministério da Magia por Harry, Rony e Hermione (usando a Poção Polissuco para disfarçar-se) em "Relíquias da Morte"; E uma visita a Godric's Hollow no mesmo volume.
De uma forma intuitiva, este retorno no tempo acaba nos mostrando que Alvo representa, de uma maneira simbólica, a infância traumática de Harry. E isso não significa que ele sofre os mesmos castigos e o mesmo desprezo que o pai sofreu, mas que em sua cabeça de adolescente Alvo vivencia o passado de seu pai, apesar de odiá-lo. É estranha esta relação, e ao mesmo tempo ela empolga e dá vida a trama.
Há algo que perdemos neste livro. Como a trama foi escrita no formato de um roteiro para teatro, não há o aprofundamento dramático tão característico de J.K.Rowling. Tem horas que sentimos falta do pensamento de Harry. Tudo isso é completado pelos atores que representam os papéis, e não temos isso ao ler o livro. Mas não se engane, Thorne (Um dos roteiristas) tem um compreensão intrínseca da alma de J.K.Rowling. Ele trabalha muito bem algumas questões que estão entranhadas em toda a obra da autora como a questão do “livre arbítrio”, o frágil equilíbrio entre amor e ódio, o papel exercido pela solidão e pela raiva na vida das pessoas, o contraponto entre as forças da luz e da escuridão e finalmente o papel da paz depois da luta.
É um livro para refletir, pensar sobre nossas ações e em como elas influem no futuro. Recordar o passado e perceber o quanto ele construiu o nosso presente e que mudar uma vírgula do passado representaria perder tudo o que temos no hoje.
Imagem da Peça Teatral Harry Potter and the Cursed Child - Londres

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