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Vamos comprar um Poeta


O título causa espanto para você? Sem dúvida me causou também? Como assim? Comprar um poeta?

Em um mundo cada vez mais orientado por números, metas, produtividade e resultados, a pergunta que atravessa Vamos Comprar um Poeta, do escritor português Afonso Cruz, causa um incômodo extremamente necessário: o que acontece quando tudo passa a ter preço, mas quase nada tem valor? Publicada em 2016, a obra se apresenta como uma fábula contemporânea, que pode ser lida em uma única tarde, mas que nos remete a profundas reflexões sobre arte, linguagem e humanidade.

A narrativa nos conduz a um universo distópico assustadoramente próximo do nosso. Nesse mundo, tudo é mensurável e avaliado segundo sua utilidade econômica. Palavras são caras, sentimentos são desperdício e relações humanas passam pelo filtro da eficiência. Não há espaço para o supérfluo, para o inútil, para aquilo que não gera retorno imediato.

É nesse contexto que uma família, a pedido da filha, decide comprar um poeta. O gesto, tratado com naturalidade pelos personagens, carrega uma forte carga simbólica: a poesia torna-se mercadoria, algo exótico, quase decorativo, adquirido sem que se saiba exatamente para quê. O poeta é como um objeto estranho em um mundo no qual a arte não tem lugar.

Na obra de Afonso Cruz, o poeta não é desenvolvido como indivíduo psicológico complexo, mas como um símbolo. Ele representa a arte, a palavra poética, à imaginação — tudo aquilo que não se submete à lógica do lucro.

A simples presença dele na família começa a provocar pequenas transformações, não pelos discursos, mas de maneira lenta através do contato com novas palavras, imagens estranhas e sentidos diversos que fogem a funcionalidade dos números. Na trama a ênfase se dá por revelar uma função mais profunda da poesia: “dar sentido à experiência humana”.

E quem já não sentiu isso na pele ao ler um bom poema?

Um dos pontos mais importante nesta obra é o revelar que se dá ao abordar que palavras não são apenas ferramentas utilitárias, mas são as metáforas, as invenções, o que se considera inútil é o que vai trazer o novo, que vai ampliar o nível de mentalidade da humanidade.

De certa forma, o autor nos sugere que o “controle da palavra controla a forma de ver o mundo”. Ao empobrecer o vocabulário, reduz-se a experiência, e neste diminuir da experiência se faz controle sobre o pensamento. É quase um grito de socorro em tempos de empobrecimento da linguagem, do uso da imagem pasteurizada e do discurso em-formado.

A escrita de Afonso Cruz é marcada por uma aparente simplicidade, quase infantil, que não diminui a densidade do texto. A narração direta e econômica evidencia o absurdo de uma sociedade que desaprendeu a sentir e a nomear emoções. Essa escolha estilística aproxima a obra do leitor e amplia seu alcance, permitindo múltiplas camadas de leitura.

O livro é para todos. É quase uma história que se conta a beira de uma fogueira em uma noite estrelada.

É preciso lembrar que nem tudo o que importa na vida pode ser medido por algoritmos ou estatística.

Qual é a métrica para o amor?

Em qual gráfico colocamos os parâmetros da amizade?

Quanto custa a emoção de ver uma obra de arte, de usar nossa imaginação?

Os números podem ser uteis em muitas coisas práticas, mas nunca devem ser usados naquilo que nos torna humanos.

Vamos Comprar um Poeta é como “Chanel nº5 da literatura”. É pequeno, mas revoluciona.

Finalizo a resenha com este belíssimo parágrafo da página 51.

“Sorriu, ou, como diria o poeta, a boca desenhou um sorriso depois de o lápis ter feito amor com o papel e desse beijo de grafite ter nascido...”


Título: Vamos comprar um poeta

Autor: Afonso Cruz

Gênero: Romance Português

Editora: Dublinense

Páginas: 96

 

Sobre o Autor: Afonso Cruz é um escritor, ilustrador, músico e cineasta português, nascido em 1971, em Figueira da Foz. Formou-se em Belas-Artes e construiu uma carreira marcada pela multiplicidade artística e pelo diálogo entre palavra e imagem. Sua obra literária transita entre romance, conto, literatura juvenil e ensaio, frequentemente permeada por reflexões filosóficas e humanistas. Recebeu diversos prêmios, entre eles o Prêmio da União Europeia para a Literatura. Seus livros são traduzidos para vários idiomas e destacam-se pela sensibilidade estética e pela crítica sutil ao mundo contemporâneo.

Imagem: Site da editora

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