Fecho o livro e não me movo do lugar. Algo me prende aquela história. É como se você fosse obrigado a se despedir de alguém que nunca mais verá em sua vida. Você fica ali, olhando, pensando nas palavras que não foram ditas, nos abraços economizados, nos momentos que ainda poderiam acontecer. É uma sensação estranha.
Falar de Nihonjin, de Oscar Nakasato, é
entrar numa espécie de território emocional onde história e silêncio caminham
lado a lado. Não é um romance que grita, ele murmura. E talvez seja nesse murmurar que reside sua força mais
perturbadora, sua emoção mais forte, a força que nos impulsiona
enlouquecidamente a ler sem parar.
A narrativa parece nascer de uma pergunta
íntima: o que acontece com a alma de alguém quando o país que lhe deu origem
fica do outro lado do oceano? Hideo, o patriarca da trama, carrega em si mesmo
um Japão que não existe mais, ou talvez só tenha existido dentro dele. A
decisão de imigrar não é apenas o transpor um espaço geográfico separado por um
oceano. Mas rever dentro de si mesmo todas as regras e símbolos adquiridos em
sua terra natal. O país é outro, a língua é outra, o tempo corre, com certeza,
em outra cadência. No entanto, Hideo
resiste a tudo isso, não somente pelo orgulho e teimosia, mas pelo simples fato
de que ele não sabe viver de outra forma e precisa preservar seu interior para
que não haja um desmoronamento do ser.
Ao ler este romance tive a sensação de que
os personagens nunca estão onde gostariam de estar. Hideo vive exilado o
Brasil. Seus descendentes vivem entre duas culturas. Há em cada página um
questionamento forte: ─ O que significa pertencer a um lugar?
Não existem grandes confrontos dramáticos
na trama, mas os gestos pequenos que compõe o dia a dia de qualquer família.
Conversas que não se completam, pensamentos que divagam, cenas que compõe um
mosaico humano que se reveza entre silêncios e o que é realmente dito. E aí
surge outra questão que Nakasato parece apresentar: ─ O que se fala é realmente
o que importa para nós? Quando o silêncio diz mais que as palavras?
Observamos uma lenta transformação
histórica de nosso país. Através da família de Hideo vemos um Brasil que usou
dos imigrantes para obter riquezas, transformando-os em “escravos voluntários”
em um país que ainda resvalava preconceito racial. Vemos um Hideo que sofria
preconceito, mas guardava dentro de si mesmo uma sombra, um preconceito muito
grande a tudo que era diferente do que ele acreditava correto. Isso ficou claro
quando proibiu sua esposa Kimi de ter amizade com uma negra.
E daí nós vemos o Haruo, filho de Hideo. Um
menino esperto que consegue furar a bolha e questiona a si mesmo quem ele é.
Isso causa conflito, mas ele parece estar disposto a pagar o preço por suas opiniões
desde criança. Confesso aqui que queria um final melhor para ele na trama.
O autor é econômico nas palavras, mesmo
assim ele consegue o lirismo que nos emociona. Ele nos coloca dentro dos
cenários, dos diálogos. Você ouve, cheira, sente cada cena descrita como se
estivesse dentro dela. E com certeza, isso é percebido quando Kimi em sua
janela olha o cafezal e vê a neve cair. É possível enxergar uma japonesa de
quimono, debruçada em uma janela simples demais e ao fundo a surreal cena (um delírio
da personagem) de neve que cai cobrindo as folhas do cafezal com seu branco
imaculado. É magia pura.
É neste ponto que Oscar Nakasato nos
presenteia, porque Nihonjin não é apenas uma trama sobre os imigrantes
japoneses, mas é um romance que fala da fragilidade humana, da busca da
identidade, e de nossa composição humana recheada de memórias, de esquecimentos
e de desejos. Somos individualidades carregadas de heranças que não escolhemos,
mas que nos compõe.
O livro termina e você quer mais, mesmo
sabendo que aquela família só vai nos mostrar aquilo. Ao fechar o livro os
personagens ficam com você, como se Hideu, Haruo, Sumie e todos outros fossem
alguém da sua família, pessoas que você conheceu e guarda muitas memórias.
Nihonjin tem muito mais a ser conversado, temas
como o machismo, o ultranacionalismo, a presença da Shindo Renmei, o casamento
inter-racial; tantos temas que não
caberiam em uma única postagem.
Não é possível ler este livro e sair a
mesma pessoa, pois Oscar Nakasato com seu talento nos transporta para outra
dimensão. Merecidamente ele furou a bolha do Prêmio Jabuti e levou a estatueta
em 2012.
Recomendo a leitura.
Título: Nihonjin
Autor: Oscar Nakasato
Gênero: Romance Brasileiro
Editora: Fósforo
Páginas: 144 páginas
Sobre o Autor:
Oscar Nakasato nasceu em 1963, na cidade de Maringá, no estado do Paraná, no
Brasil. Filho de descendentes de imigrantes japoneses.
Formou-se em Letras e seguiu carreira
acadêmica, dedicando-se ao estudo da literatura brasileira e à crítica
literária. Tornou-se professor universitário na Universidade Tecnológica Federal
do Paraná (UTFPR), onde atuou principalmente nas áreas de literatura, leitura e
formação de professores.

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