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23 de dez de 2014

A história de um livro

Fiquei alguns dias pensando em qual seria o meu post de Natal para o blog. Não achava adequado publicar algo sobre um único livro recém-lido, o que farei assim que 2005 começar. Não cabia também a publicação de uma coletânea, já que meus leitores acompanharam ao longo de 2014 todos os bons e “não tão bons” livros que fizeram parte de minha vida. Então publicar o quê?
Olhando para minha estante (confesso que bagunçada) vejo um título antigo, um livro que comprei em 1986 e coincidentemente está na lista de leituras de férias de um amigo no facebook.
Quando você olha um livro assim, vem toda uma gama de recordações, que muitas vezes passa por amigos que ficaram ao longo da jornada de nossa vida, situações inusitadas e outros fatos. Eu tenho muitos assim, mas este é especial.
O I Ching – O livro das mutações, da Editora Pensamento, que ainda edita e reedita esta publicação (já me senti tentada a comprar um novo), é o livro que escolhi como meu post de natal.
O livro que foi traduzido para o alemão por Richard Wilheim e prefaciado por Carl Jung é algo que você pode ler do começo ao fim, ou apenas os hexagramas que indicados enquanto você joga as varetas ou as moedas.
Só explicando, o I Ching é uma espécie de oráculo anterior a dinastia Chou (1150-249 a.C) que contém imagens de linhas entrecortadas que formam trigramas que juntos formam um hexagrama principal. Cada um desses hexagramas contém uma filosofia, um ensinamento profundo que orientava as pessoas a tomarem decisões. O livro é muito mais que  isso e mereceria um post completo sobre ele, mas isso eu farei mais tarde, pois exigiria uma nova leitura e não há tempo para isso. O que interessa mesmo, neste momento, é o sentimento em relação a ele.
Meu exemplar foi comprado na falecida Casa Fretin, no centro de São Paulo – ele ainda tem o selinho da loja, quase uma raridade. – e na época era algo que eu estava realmente louca para ler.
Eu me lembro até hoje que sai da loja em direção ao ponto de ônibus na Praça Patriarca esfusiante e com o livro fora da sacolinha de compra, aberto e tentando ler enquanto driblava um e outro pedestre apressado. É claro que na época, influenciada pelas deliciosas aulas de psicologia do professor Odair Furtado, na ESPM,  abri o exemplar direto no prefácio do Carl Jung.
Mergulho na leitura, distração a parte, não percebi que estava sendo seguida até o ônibus. Sentei no banco próximo a janela e continuei minha leitura até que uma voz masculina me tira do transe da leitura:
- Já descobriu seu futuro nas linhas do I Ching?
A voz vinha do banco de trás, e os lábios que a emitiam estavam muito próximos de minha cabeça. Um pequeno pulo no banco é apenas um resumo do susto que levei. Coração disparado, lívida, de susto e com a única certeza de que nada aconteceria comigo já que estava cercada de pessoas virei a cabeça em direção ao atrevido senhor que ousava olhar e me interromper em um momento tão intimo.
Qual não foi a surpresa quando vi que o atrevido era um amigo, que sorria – para ser sincera – gargalhava ao ver minha expressão de espanto.
- Pidão!!! – Exclamei, pois este era o apelido do divertido amigo da faculdade José Esperidião.
- O livro deve ser muito bom. – Exclamou entre risos. – Estou seguindo você desde a loja e você não percebeu... precisa tomar cuidado. Podia ser um tarado.
Ao ouvir esta palavra, a senhorinha que estava ao meu lado corou, virou-se para ele e disse;
- Sente-se ao lado dela para conversarem melhor.
É claro que ela não estava disposta a ouvir o que meu amigo tinha a dizer. Ele parecia muito liberal para o gosto da época.
Pois bem, naquele instante soube que o Pidão havia me seguido e subido no ônibus que levava para a minha casa, a cada dele ficava do outro lado da cidade, na Faria Lima. Ele fez isso só para descobrir por que eu me distrai tanto com um livro a ponto de perder a noção de onde estava.
Passamos um tempo rindo, e eu tentando explicar as implicações dentro da psicologia e da tradição chinesa, que sempre teve um espaço reservado dentro de minhas preferências, daquele livro milenar.
O papo foi até parte da av. São João, e Pidão desceu enfrente ao antigo cinema Comodoro dizendo que compraria um exemplar para ele.
- Você vai voltar na loja?
- Sim. – Ele respondeu todo curioso.
- Não perca seu tempo. Comprei o ultimo exemplar. – Ele fez um muxoxo. – Mas tem a livraria da editora lá na Liberdade. Dá um pulo lá.
O que eu quero dizer com todo este texto é que alguns livros nos contam outras histórias, além das que suas páginas contêm. Contam todas as aventuras que passamos entre a compra e a leitura. Muitas vezes nos conta a matemática financeira que foi preciso para comprar um único exemplar – como é o caso deste I Ching.
Muitas vezes, ao longo desses anos, pensei em mandar o livro para um sebo, mas nunca tive coragem. Ele esta velhinho, todo amarelado, e em dias muito frio minha alergia não permite que eu chegue nem perto dele, mas a história de sua compra, a primeira vez que abri suas páginas e senti o cheiro de papel novo impresso e os bate papos regados de muito bom humor e filosofia que ele gerou fazem este exemplar muito especial. Se eu vou comprar um novo? – Ainda não sei.
Eu sempre penso em um livro como como um ser repleto de vida que entra na nossa história com seus personagens que vivem em uma dimensão a parte – Já usei esta expressão em meu próprio livro Literatura & Champanhe.
Quando você escolhe um livro para presentear, não pode ser uma escolha aleatória, ou algo feito por obrigação. Dar um livro – ou comprar. – precisa do uso da intuição, tem que abrir seus ouvidos para o chamado dos personagens. Eles existem, eles têm vida, e a vida deles se entrelaça a nossa de maneira indissolúvel.
Da próxima vez que for a uma livraria procure por algo que tire todos os seus sentidos, por um livro que o faça se esquecer dos compromissos, dos problemas, de sua própria vida. Se encontrar compre, por que ele será muito especial para você ou para o seu presenteado.
Tenho um amigo querido chamado Paulo que diz sempre em suas palestras “O Livro é conhecimento em Conserva.” Imagine um livro de 200 anos, quanto conhecimento ele conservou para que você o abrisse e encontrasse muito tempo depois?
Acho que Natal é isso, é buscar o que nos encanta, o que nos faz acreditar na magia,  por que só acreditando é que faremos com que os outros acreditem e sejam felizes.
Eu acredito, e você?

Desejo a todos os meus leitores um Natal repleto de luz, magia e com bons livros para compartilhar.

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