por Magda Oliveira
A vida
inspira muitas histórias, ou são elas que inspiram a vida? Trata-se de um
dilema antigo que acabo de inventar. Os dilemas se cruzam na minha mente desde
a primeira infância, em Curvelo-MG, onde nasci no início dos anos de chumbo da
ditadura militar. Ser uma menina criativa naquela ambiência de medo e pânico
era sufocante, mas não para mim, para os meus pais e professoras da
alfabetização, pois a criatividade não se aprisiona. Em casa me deixavam à
solta em muitos metros quadrados do quintal da casa dos meus avós; alguns anos
mais tarde, na escola, as composições mais críticas eram lidas apenas pelos
olhos das professoras, que riam com o canto da boca e eu as observava com o
canto dos olhos.
“Dentro
dessa menina tem duas”, dizia a minha avó materna quando me ouvia falando
sozinha no meio das inúmeras cenas que eu plantava naquele terreiro, como eram
chamados os quintais grandes do interior mineiro. Lembro-me de enfileirar paus
e pedrinhas e iniciar o que eu chamava de aulinhas. Contava estórias e imitava
as mestras carrancudas do grupo escolar, ordenava aos aluninhos inanimados, que
calassem suas bocas e prestassem atenção ao que eu dizia e gesticulava, do
jeito que elas faziam nas classes escolares silenciosas, como se crianças não
existissem por lá, as carteiras postas uma na frente da outra e não podíamos
nos virar para os lados, ou mesmo compartilhar algo com os colegas. A minha
mente se inquietava, imaginando coisas e tornando o meu mundo mais atrativo e
curioso.
Já
alfabetizada, era um grande prazer lidar com os meus próprios pensamentos, pois
eu adorava transferi-los ao papel, dando alguma forma ao conteúdo que figurava
na minha tenra imaginação. Em Brasília, na ilusão de novas oportunidades de
trabalho e estudo, meus pais, irmãs e mais tarde um irmão, eu tive acesso aos
livros infantis e professoras que notaram as minhas habilidades na escrita.
Aplaudiam as composições que partiam de desenhos prontos, rodados no mimeógrafo
e com cheiro de álcool que me enjoava o estômago na hora da fome. Mesmo assim,
me divertia criando um mundo à parte do meu próprio, personagens e cenas com
muita fartura de comida, viagens e vidas abastadas, cheias de bolos e
maçãs.
A escrita
foi parar nas minhas salas de aula, muitos livros, troca de palavras,
efervescências, dinamismo de uma professora que amava ouvir e criar mundos
diferentes em prosa, poesia e outros gêneros literários. A realidade local
virava tema de redações, textos coletivos, ilustrações infantis e toda a sorte
de material que levasse significado aos conteúdos sem miolos. Passei a escrever
livros infantis, com histórias que aguçam a mente dos pequenos leitores e
personagens que transformam sonhos em realidade e agem nela como
sujeitos.
Hoje, leio e escrevo não para existir, mas para definir a minha existência. Uma mulher que escreve resiste aos lamentos de uma vida assoberbada de perigos e princípios de uma sociedade patriarcal que não impede a nossa morte. Dentro da palavra me faço menos inocente, finjo ser o que eu quiser, faço da minha obra um posicionamento político diante de um mundo masculino, supostamente viril e verdadeiramente hostil desde a minha primeira infância e da maioria das mulheres. Decidi escrever uma obra ficcional sobre a trajetória de uma mulher e suas três vidas, representando as fases mais marcantes dessa existência. A protagonista Joana Reis busca os culpados pelas suas tragédias pessoais e, dentre muitas reminiscências, a resposta se torna o seu pior pesadelo: conhecer-se a si mesma e entender que não há garantias, pois a vida não é linear. Nesse processo, muitas pausas são feitas, idas e vindas, entalada pelos seus próprios dilemas e coisas ainda não resolvidas. Como autora, estou nesse mesmo processo e busco na diversidade de leituras, o meu elo perdido. A literatura é uma fuga capaz de me situar no tempo e no espaço, criar e recriar mundos, sem negar que é a minha terapia possível para conviver dentro de um invólucro de questões e enigmas que me forçam a pensar na beleza da vida, mas também, na finitude de uma humanidade fadada ao seu próprio extermínio, como não se vê em nenhuma outra espécie do planeta.
Magda Oliveira nasceu em Curvelo MG. Formou-se em
Pedagogia pela Universidade de Brasília e ingressou na Secretaria de Educação
do Distrito Federal (SEEDF). Foi
professora das séries iniciais do Ensino Fundamental, na Socioeducação com
alunos e alunas em situação de risco
social e, no final da carreira, na Educação Especial. Ela escreve músicas,
contos, poesias e livros para o público infantojuvenil, sempre valorizando o
pensamento crítico. É casada e tem duas filhas.
Imagem: Acervo da autora

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