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Os Perigos do Imperador


A história pode ser tão interessante quanto à ficção?

Rui Castro nos demonstra isso, quando com suas mãos hábeis nos apresenta uma trama que mescla a história real com fatos criados por sua cabeça privilegiada.

Conhecido por suas biografias detalhadas, Rui Castro coloca em Os Perigos do Imperador com seu talento parte de um período interessante do Império com cartas e diários, e cria uma trama golpista que deixa as atuais como simples brincadeiras de crianças malvadas.

Que Dom Pedro II foi uma das grandes personalidades deste país ninguém tem dúvida. Apesar de todo o apagamento histórico a que foi submetido, como se o período do Império tenha sido algo danoso à Nação, nosso Imperador resiste a qualquer crítica.

Ele era uma pessoa culta que amava o país. Ao longo de sua vida criou varias instituições culturais no Brasil. Acreditou e trouxe os primeiros telefones para  cá. Pedro II falava diversas línguas e traduzia textos clássicos, muitos deles ainda consultados pelos acadêmicos.

Os Perigos do Imperador relata a época em que Pedro II foi aos Estados Unidos para a exposição do centenário da independência americana. As cartas e o diário que ele escrevia sobre suas impressões daquele país são interessantíssimos. Em uma delas, contida na página 90 ele nos coloca suas impressões sobre a República americana:

“(..)Eu imaginava uma monarquia sem monarca. Mas vejo que é muito mais. Trata-se de um sistema quase bárbaro de governo, sem quaisquer convenções, hierarquias ou formalidades. As instituições vivem à solta, como os bichos, e as coisas parecem acontecer por conta própria.(...)”

Outro trecho interessante de uma carta enviada para a Condessa de Barral em abril de 1876, se compararmos com o Brasil de hoje, é o que fala sobre a pontualidade:

“A pontualidade não parece ser uma preocupação dos americanos. É raro que o trem obedeça aos horários de chegada e partida, o que pelo visto não perturba o maquinista nem os passageiros.(...)”

Há outros trechos muito interessantes no qual ele comenta sobre a modernidade do país em comparação as belezas do nosso. Percebe-se através dessas cartas e diário o grande senso de observação e análise crítica do Imperador.

Agora, quando entramos nas tramas da ficção, que o autor teve o cuidado de nos explicar que estariam sob o título de Narrador, extrapolamos o nível de destreza na escrita. É tudo tão real que, se o leitor passar pelo inicio do livro de forma desatenta, irá acreditar que realmente o Imperador sofreu um atentado em sua visita aos Estados Unidos.

Tem outro ponto importante a se ressaltar que é o fato de sabermos que o Imperador não morreu em um atentado. Mesmo assim, Rui Castro consegue manter a tensão, o suspense ao longo de toda a trama.

A forma como descreve todo o planejamento, os passos do cavalo errado, a maneira fria que o assassino se propõe a matar uma figura tão adorada pelo povo, nos prende, nos faz querer saber o que virá depois. Como o autor vai concluir a trama. O leitor quer saber os detalhes, já que conhece o desfecho.

Outro ponto importante é que a trama proporciona algo além do “entretenimento”. As reflexões provocadas pelo texto são atuais: polarização política, circulação de notícias falsas, disputas por narrativas, discursos radicais como instrumento do poder, golpes travestidos de benemerência e outras verdades  que poderão ser degustadas por quem ler o livro mas também estiver bem e corretamente informado.

Os Perigos do Imperador é muito mais que uma reconstituição do segundo reinado, é um convite para a reflexão e para que se perceba a importância de conhecer a fundo a história de um país, sem os famosos vieses políticos/partidários.

E você querido leitor. O que sabe sobre o Segundo Reinado?

Boa leitura!

 

Título: Os Perigos do Imperador

Autor: Rui Castro

Gênero: Ficção

Editora: Companhia das Letras

Páginas: 198 páginas

 

Sobre o Autor: Rui Castro começou como repórter em 1967, no Rio, e passou por todos os grandes veículos da imprensa carioca e paulistana. A partir de 1990, concentrou-se nos livros. Escreveu biografias de Nelson Rodrigues, Garrincha e Carmen Miranda, reconstituições históricas sobre o Rio moderno dos anos 1920 e a Segunda Guerra na então capital federal, e três romances. Em 2021, ganhou o Prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras, para cuja cadeira 13 foi eleito no ano seguinte. É colunista da Folha de S.Paulo. (Biografia da orelha do livro)

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