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Mostrando postagens de janeiro, 2026

Crônica de uma morte anunciada: quando a sociedade escreve o destino

Desde a primeira frase, Crônica de uma morte anunciada , de Gabriel García Marquez, coloca o leitor diante de uma certeza incômoda: Santiago Nasar vai morrer. O que poderia ser apenas o ponto de partida de um romance policial transforma-se, nas mãos do autor, em uma investigação moral sobre honra, culpa coletiva e o peso das tradições. Não se trata de descobrir quem matou, mas de compreender por que ninguém impediu. A narrativa assume a forma de uma crônica reconstruída muitos anos depois. O narrador retorna à pequena cidade para recompor os acontecimentos a partir de depoimentos fragmentados, memórias falhas e documentos incompletos. Essa estrutura desmonta a ideia de verdade única: cada personagem lembra de um detalhe diferente, cada versão carrega suas próprias lacunas. Assim, o próprio texto se torna um espelho da sociedade que descreve — confusa, contraditória e, sobretudo, conivente. O motor da tragédia é o antigo código de honra. Quando Angela Vicario é devolvida pelo marido...

A flor de Origami

Mandei a mensagem, que vou reproduzir abaixo, para meus amigos hoje. Gosto demais da cultura oriental que dá significado a tudo. Há tempos não fazia um origami, mas esta semana comecei fazendo os Tsurus e ontem foi a vez da flor de Íris, que possui um grau de dificuldade maior, mas também uma satisfação incrível quando se vê o resultado. O origami surgiu em minha vida através de uma amiga da escola. Ela andava pelas ruas de Pirituba com seu saquinho cheio de papéis que ela dobrava com facilidade. Eu era fascinada por aquilo. Nunca falei nada para ela. Muito tempo depois, encontrei um livro da Mari Kanegae sobre a arte do origami e decidi tentar fazer por conta própria. Foi uma experiência incrível, um desafio enorme seguir esquemas nunca dantes navegados. Quando minha mãe ficou doente lembrei-me da história dos 1000 tsurus, e comecei a fazer. Infelizmente não deu tempo de terminar (Cheguei aos 800), mas em cada um deles foi a intenção da cura, que não veio porque a medicina não...

As Cabeças Trocadas — um conto mítico sobre identidade, corpo e destino.

Thomas Mann parte de uma matéria tradicional — um conto folclórico indiano — e o transforma, com sua ironia erudita e seu senso de fábula moral, em uma narrativa que funciona simultaneamente como mito, ensaio filosófico e sátira social. As Cabeças Trocadas não é apenas uma transposição de enredo; é uma dissecação literária das tensões entre carne e intelecto, aparência e essência, desejo e dever. No cerne da história está um gesto fabulístico simples e perturbador: a troca de cabeças entre dois homens que amam a mesma mulher. Mann conserva o caráter folclórico — toda a história tem o ritmo de uma lenda contada à beira da fogueira — mas acrescenta camadas de interpretação e uma inquietante precisão psicológica. A troca física torna-se, ao mesmo tempo, um experimento metafísico: se a cabeça determina a identidade, o que restará do corpo? Se a personalidade migra com a cabeça, onde fica a lealdade, o afeto, o direito ao amor? A beleza do texto está em como Mann joga com opostos compl...

A função da leitura não é apenas causar reflexão

É janeiro, e apesar disso ser óbvio hoje, talvez não seja na data que você estará lendo esta postagem. Digo isso porque na vida, assim como nos livros, na web, o que se passa no hoje pode não ser a mesma coisa amanhã. Sim, talvez minha alma esteja impregnada da filosofia. Culpa de uma releitura que estou fazendo. Li uma postagem recentemente que, de certa forma, menosprezava o ato de ler. Segundo a autora da postagem se você lê sem reflexão, a leitura não te serve de nada. Discordo veementemente. Primeiramente porque o ato de ler não se limita a agregar conhecimento, mas também a trabalhar o sensível, a criar empatia, a trabalhar possíveis traumas futuros (1) . Explico melhor. Ninguém deseja ser sequestrado (Não que eu saiba), mas quando você lê um livro em que o personagem foi sequestrado você vivencia em nível mental aquela emoção. Se um dia (espero que nunca aconteça) isso for uma verdade para você, seu emocional estará mais preparado para isso. ─ Você fez alguma reflexão ...

Inelutável Modalidade do Visível

Começo o ano com poesia. Que venham os bons ventos, os bons poemas, nuvens passageiras e abraços amigos. Nada   é mais intenso que ler um bom poema. Recebi no ano passado um exemplar digital do livro Inelutável Modalidade do Visível, de Arnaldo Rocha Filho que mescla texto e fotos de uma cidade Ouro Preto que vai além, que se esconde por entre prédios antigos, ladeiras íngremes e cheiro de história. O título do livro “Inelutável Modalidade do Visível” é uma frase do escritor James Joyce em seu inenarrável Ulysses. A frase é algo como avaliarmos a natureza do ato de ver e ser visto. O que é ver? O que olhamos no cotidiano, estamos realmente vendo? O que há por trás do que vemos? É só o objeto ou tem mais? Bem, eu iria muito longe por aqui se meu objetivo fosse outro, mas eu quero falar deste livro surpreendente. O livro conta com fotos de Eduardo Tropia, ilustrações de Chiquitão e tradução poética de Adriana Iennaco de Castro. Os textos são frestas, pequenas aberturas de jan...

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