Sabe aquele livro que você lê, mas não sabe o que escrever sobre ele? Não pelo fato de não ter assunto, mas porque você termina a trama e não consegue responder a uma pergunta básica: ─ Gostei da história? Os Detetives Selvagens, de Roberto Bolaño pertence a esse grupo de livros. Ele nos convida para dentro de uma época da vida, tempos e atitudes que não combinam muito com minha visão de mundo. É uma história sobre juventude transviada, quase um diário de um adolescente meio sem cabeça, sem rumo, que tem a inquietação da idade, mas extrapola um pouco o ponto entre razoável neste quesito. A princípio, a leitura causa uma sensação de desorientação. Bolaño não entrega uma narrativa linear, confortável, com começo, meio e fim muito bem comportados. A história é construída por diferentes vozes, depoimentos e lembranças, como se estivéssemos folheando um enorme diário coletivo. E talvez seja justamente aí que esteja uma de suas maiores qualidades. Há uma intensidade quase exagerada em...
─ O que acontece quando a arte, a solidão e a memória se encontram? Talvez a grande pergunta que permeia toda a trama de O Perfume das Flores à Noite , da escritora franco-marroquina Leïla Slimani seja esta. Antes de falar do livro digo que este foi um dos presentes mais gostosos que recebi, porque quando um escritor fala de si mesmo, como a história da autora, ela também fala um pouquinho de cada um de nós, que tem na escrita um ponto de diálogo com o mundo, com a vida e com os outros. Voltando ao livro. Ele parte de um convite recebido pela escritora para passar uma noite sozinha no museu Punta della Dogana , em Veneza. Inicialmente o convite parecia ser apenas para que a escritora se inspirasse e retorne a sua escrita, mas a surpreende uma maneira bem diferenciada. Slimani transforma essa oportunidade em um mergulho dentro de si mesma e de suas memórias. O museu acaba funcionando como uma extensão da memória de Leïla, onde a cada nova descoberta da arte, a autora também dese...