Pular para o conteúdo principal

Um anjo para Anita

Atenção: Este texto contém direitos autorais. Proibido a publicação sem citar autor e o endereço do blog.

Imagem sem identificação de autor. Fonte Google Imagens

Anita puxou a saia da mãe um montão de vezes e ela nem se deu ao trabalho de olhar. Estava em meio às compras de presentes em uma loja atolada de gente. Os presentes eram mais importantes que a filha.

- Mamãe! – chamava a insistente criança.

A mãe olhou zangada, blasfemou algumas palavras muito rudes e continuou a disputar lembrancinhas enquanto a menina com os olhos encharcados de lágrimas observava a mãe e a porta da rua.

Anita soltou das mãos da mãe, que a esta altura da loucura consumista nem percebeu, e foi em direção a porta.

- Oi – disse em uma voz infantil e chorosa – Você é um anjo de verdade?

Um homem alto, forte, de olhos bem claros e cabelos castanhos pelo ombro, ostentava asas alvas e transparentes para a maioria das pessoas que passavam por ele. Só Anita conseguia vê-lo. Abaixou-se para conversar com a menina.

- Oi Anita, sou de verdade.

- Então você pode realizar um pedido?

- Vai depender muito do que você pedir – olhou carinhosamente para ela – o que deseja?

Ela olhou bem para ele, deu um suspiro dolorido e passou as costas das mãos nos olhos para enxugar as lágrimas.

- Eu quero que o papai e a mamãe gostem de mim.

O anjo olhou para ela com tristeza, observou a mãe que ainda não havia percebido o que acontecia com sua filha, ponderou muito.

- Anita, isso é impossível. Papai e mamãe não conseguem fazer isso com você.

- Então eu quero alguém que goste de mim – falou com as mãozinhas na cintura e o rosto triste.

- Você tem certeza? – o anjo olhou para ela com dor, mas sabia exatamente o porquê de estar naquele lugar. Ele tinha que levá-la.

- Tenho. – olhou para ele com doçura. – Não vou chorar nem ficar triste. Acho que papai e mamãe ainda não entenderam...

- O quê? – O anjo interrompeu a menina, espantado com a declaração.

- Ah! Anjinho. – sorriu. – Papai e mamãe não podem cuidar de mim... eles não sabem cuidar nem deles. – olhou para ele inquisitiva. – Você vai me levar?

- Vou. – O anjo abriu um sorriso iluminado. - Você sabe para onde?

- Sei. – riu. – Lá naquele lugar que eu estava antes de vir aqui. É divertido. – olhou carinhosamente para o anjo. – Eu sei que eu vou voltar depois, então... não vou ficar triste.

- Você quer ir agora ou quer esperar o Natal?

- Agora. Estou muito cansada.

- Então vamos. – Pegou nas mãos de Anita, colocou-a no colo e desapareceram rindo, não sem antes a menina perguntar qual era o nome do anjo.

Na loja, uma senhora idosa que observava algo que ninguém via gritou desesperada quando viu a menina cair no chão. A mãe nem olhou até que a mulher a sacudiu.

Anita estava morta.


Soraya Felix
09/12/2011

Comentários

É uma historia que nos leva a refletir. Eu, as vezes, presencio no seio de minha familia, situações onde o lado material vem na frente do lado emocional. Creio que acontece isso em todo lugar. Agora, o amor filial tem uma força maior que os outros amores, se posso dizer assim. A necessidade de atenção, que você mostra no seu conto, também está presente no nosso cotidiano e esta talvez seja o maior desequilibrio do ser humano. Um beijo, um afeto, um gesto de carinho, no momento certo, é o antidoto para curar muitas feridas ao longo da vida. O tempo fisico passa, mas o momento de afeto fica eternizado.
Parabéns, Soraya. Gostei muito da publicação
Luis Antonio
Anônimo disse…
Obrigada por comentar. Infelizmente vemos este tipo de situação todos os dias nas ruas, nos telejornais. O mundo está valorizando demais o material e esquecendo de sentir.
Soraya

Postagens mais visitadas deste blog

Inferno

Autor:  Dan Brown Tradutor: Fabiano Morais e Fernanda Abreu Editora:  Arqueiro Número de páginas:  448 Ano de Lançamento:  2013 (EUA) Avaliação do Prosa Mágica:   9                               Gênio ou Louco? Você termina a leitura de Inferno e continua sem uma resposta para esta pergunta. Dan Brown nos engana, muito, de uma maneira descarada, sem dó de seu leitor, sem nenhuma piedade por sua alma. O autor passa praticamente metade do livro te enganando. Você se sente traído quando descobre tudo, se sente usado, irritado, revoltado. Que é esse Dan Brown que escreveu Inferno??? Nas primeiras duzentas páginas não parece ser o mesmo que escreveu brilhantemente Símbolo Perdido e Código D’Vince.  Mapa do Inferno. Botticelli. Então, quando você descobre que está sendo enganado, assim como o brilhante Robert Langdon, a sua opinião vai se transformando lentamente, e passa de pura revolta a admiração. É genial a manipulação que Dan Brown consegue fazer c

Tudo vai passar

Diante desta desgraça geral, com tantas mortes no mundo e no Brasil, pode parecer estranho um blog falar de leitura, de romance, de ficção, de sonhos. Pode ter a certeza que não é. Do que é feita a vida, senão de sonhos tornados realidades? O que seria agora, dos milhões de italianos que estão em isolamento total em suas casas se não fosse o sonho, a esperança? - Tudo vai passar. Uma das maneiras mais ricas de se passar um momento como esse é a leitura.   O livro é a porta aberta para o mundo que não podemos caminhar; são os abraços que não podemos dar; são os familiares que não podemos encontrar; são pessoas diferentes com as quais podemos dialogar, mesmo que em um primeiro momento pareça que estamos exercendo um monologo. Você pode optar por dialogar com escritores mais contemporâneos, que nos apresentam uma linguagem atual. Talvez uma conversa regada a saquê com Murakami com “histórias bizarras que gravitam no limite do realismo fantástico” como explica Felipe Massahiro.

Setembro

Autor:   Rosamund Pilcher Tradução: Angela Nascimento Machado Editora:  Bertrand Brasil Número de páginas: 462 Ano de Lançamento: 1990 Avaliação do Prosa Mágica:   10                         É uma história extremamente envolvente e humana que traça a vida de uma dúzia de personagens. A trama se passa na Escócia, e acontece entre os meses de maio a setembro, tendo como pano de fundo uma festa de aniversário que acontecerá em grande estilo. Violet, que me parece ser a própria Rosamund, costura a relação entre as famílias que fazem parte deste romance. Com destreza e delicadeza, a autora   nos conta o cotidiano destas famílias, coisas comuns como comer, fazer compras, tricô, jardinagem. Problemas pessoais como a necessidade de um trabalho para complementar a   renda e outras preocupações do cotidiano que surpreendem pela beleza que são apresentadas. É um livro em camadas, que pode ser avaliado sobre vários aspectos que se complementam. Pandora, por exemplo, é o