O fim do mundo anda meio ocupado ultimamente. Se antes ele vinha com as trombetas do apocalipse, agora chega por notificações: “urgente”, “última hora”, “em desenvolvimento”. Entre uma atualização e outra, alguém menciona tensões como a guerra entre Estados Unidos e Irã, e o planeta suspira — não em surpresa, mas em cansaço. Afinal, o apocalipse, ao que parece, entrou na rotina.
Há
algo de irônico nisso tudo: enquanto imaginávamos o fim como um grande
espetáculo final, ele vai acontecendo em pequenas prestações. Um gelo que
derrete aqui, uma floresta que arde ali, uma crise que escala acolá, a ascensão
de algumas vertentes políticas radicais, a
intolerância. Nada muito cinematográfico, mas suficientemente persistente para
nos lembrar de que o extraordinário pode ser, na verdade, ainda estarmos aqui.
E,
no entanto, a vida insiste. O café ainda esfria sobre a mesa, as pessoas ainda
riem de coisas bobas, alguém ainda planta uma árvore sem saber quem vai colher
a sombra, crianças ainda saltitam em poças d’água após a chuva. Talvez o
verdadeiro mistério não seja como o mundo termina, mas como ele continua —
apesar de nós.
Não
é um convite ao desespero, nem à indiferença elegante de quem observa o caos
como quem assiste a um filme. Há uma responsabilidade silenciosa em cada gesto
cotidiano, uma espécie de ética discreta que não precisa de palco. Ser gentil,
por exemplo, continua sendo um ato revolucionário de baixa visibilidade.
Cuidar, ouvir, preservar — verbos simples, mas que, curiosamente, não saem de
moda nem em tempos de colapso.
Também
não convém romantizar o futuro. Ele provavelmente não será um paraíso
perfeitamente ajustado, nem um deserto absoluto como o proposto por Inácio de
Loyla Brandão em seu livro “Não verás país nenhum”. Será, como sempre foi, um
território em disputa — entre o que destruímos e o que decidimos reconstruir. A
diferença é que agora sabemos mais. E saber, como se sabe, é um tipo incômodo
de responsabilidade.
Talvez
o fim do mundo não seja um evento, mas um processo. E talvez, no meio dele,
exista espaço para começos. Pequenos, imperfeitos, quase invisíveis — mas
teimosos. Como quem acende uma vela não para iluminar o mundo inteiro, mas para
garantir que a escuridão não tenha a última palavra.
No fim das contas, se o mundo acabar
mesmo, que nos encontre ocupados: não em negar o desastre, nem em celebrá-lo
com cinismo, mas em fazer o nosso possível — esse gesto modesto e
extraordinário — de viver com propósito. Afinal, se há algo que o fim do mundo
ainda não conseguiu destruir, é a estranha e persistente capacidade humana de
recomeçar.
Crédito
de imagem: Wirestock no Freepik

Maravilhoso texto 👏👏👏👏👏 reflexivo, competente e literário... Parabéns!
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