Se você gosta de ler já deve ter ouvido falar no conceito de biblioteca de Umberto Eco. Aquela história que uma biblioteca pessoal deve ter muito mais livros não lidos, que os já lidos. A minha não chega a isso, mas tenho alguns exemplares que ainda não foram lidos, dentre eles estava “Adeus, China”.
Estava lá, quietinho na estante.
Nem tinha sido uma escolha minha no momento da compra. Dentro dele repousava um
marcador novinho, de uma livraria que não mais existe: a Cultura.
Semana passada estava sem nada
para ler, olhei minha estante e pensei ─ Por que não? Peguei o livro e não
parei mais de ler. Sensacional.
O autor Li Cunxin é um bailarino
de origem chinesa, que conta sua trajetória de vida que saiu da extrema pobreza
em uma vila em Qingdao e viveu um sonho (não planejado) de ser um dos maiores e
mais respeitados bailarinos de sua época.
O texto fluido, as histórias que nos
emocionam, a garra e a coragem dele nos leva a uma viagem na qual o final da
trama é o que menos interessa. O que nos move na leitura é perceber que o
importante de uma jornada é o processo, é a insistência, é não desistir quando
tudo parece colaborar para não dar certo.
Li Cunxin saiu da extrema pobreza,
de uma família unida, repleta de amor e de coragem. Na época, Mao Tsé-Tung era
o líder de uma nação destroçada pelo comunismo e pela pobreza. Os cidadãos
chineses eram doutrinados a acreditar que o país era uma maravilha, que outros
lugares horríveis e desumanos. Não tinham contato com o mundo, apenas com o
pequeno mundinho que viviam, e mesmo assim, precisaram deixar suas antigas tradições
de lado, sua religião porque o governo central não permitia.
No entanto, a mulher de Mao criou
uma academia ligada as artes, não porque acreditava realmente em uma formação
artística, mas aquela seria uma forma de doutrinar e trazer jovens para a
Guarda Vermelha e para o Partido Comunista. Li Cunxin foi aceito por acaso
nessa escola, graças a um impulso de uma professora que sugeriu que ele fosse
testado.
Sem ao menos saber o que era o
balé, Cunxin partiu para a capital estudar na Academia de Dança de Pequim e lá
estudou debaixo de dura disciplina, foi doutrinado e descobriu o que era o
balé. Durante três longos anos não desistiu pela família. Foi um professor que
o fez ver o balé real, e suas potencialidades.
Li Cunxin se dedicou muito aos
estudos, melhorou sua técnica e com a morte de Mao, ele teve a oportunidade de
ir aos Estados Unidos por um mês estudar em uma escola de balé.
A partir daí Li Cunxin passa a
questionar a vida que tinha, passa a ver que as histórias que ouvia em seu pais
eram mentiras e em uma segunda vez que viaja ele decide ficar nos Estados
Unidos, e isso gera muitas consequências, inclusive o afastamento da família
pela proibição de retornar a China.
Não vou detalhar demais aqui a
história deste bailarino incrível, porque o livro precisa ser lido para ser
sentido. Mas tem alguns pontos muito interessantes que ele levanta.
Mesmo diante de tantas mentiras
que ele ouviu e da qual ele fugiu, Li Cunxin nunca deixou de pensar e de se sentir
culpado por estar levando uma boa vida enquanto a família penava na China. (Ele
não sabia que a situação tinha melhorado um pouco)
O sucesso internacional que ele
teve sempre foi associado a oportunidade que a Sra. Mao deu, ao lhe dar escola,
comida, letramento e a disciplina necessária para a dança. Disciplina extrema,
mas que permitiu que ele voltasse a dançar depois de problemas graves de saúde.
“Adeus, China” é um livro de
reflexão, não só política (e aqui falo de todos os extremos dela), mas de vida.
O quanto à força de vontade e a dedicação podem nos levar a caminhos que achávamos
impossíveis. Se houver dedicação, se houver concentração na jornada, o
resultado virá.
Li Cunxin nos presenteou com sua
história, com sua escrita fluida que nos leva da aldeia pobre no interior da
China até os grandes palcos dos Estados Unidos e da Europa.
“Adeus, China” é um livro
interessante para Clubes de Leitura, com uma temática variada que dará, com certeza, uma boa roda
de conversa.
Recomendo a leitura.
Li Cunxin (1961) é um ex-bailarino chinês-australiano cuja trajetória se tornou um símbolo de superação, coragem e dedicação à arte. Nascido em uma família extremamente na China, foi selecionado ainda criança para estudar na Academia de Dança de Pequim, onde desenvolveu seu talento para o balé. Em 1979, durante um intercâmbio cultural nos Estados Unidos, teve contato com uma realidade muito diferente daquela em que crescera e, alguns anos depois, decidiu permanecer no Ocidente, tornando-se um dos mais renomados bailarinos de sua geração.
Autor: Li Cunxin
Tradutor: Neuza
Capelo
Ano de lançamento: 2012 (1º Edição)
Editora: Fundamento
Gênero: Autobiografia
Páginas: 408
Foto:
Site Inspire
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