Há livros que atravessam os séculos porque continuam fazendo perguntas. E há outros que atravessam os séculos justamente porque precisamos continuar perguntando se ainda deveríamos lê-los da mesma maneira.
A Megera
Domada, de William Shakespeare, pertence às duas
categorias.
Escrita
provavelmente no final do século XVI, a comédia apresenta Catarina, uma jovem
de temperamento forte, inteligente, impetuoso e pouco disposta a obedecer às
convenções sociais de seu tempo. Ao seu redor, está uma sociedade que parece
ter uma solução pronta para mulheres que não se comportam como se espera delas:
encontrar alguém que as "domine".
É nesse
cenário que surge Petrucchio, homem determinado a conquistar Catarina — não
exatamente por seu encanto romântico, mas porque acredita ser capaz de
transformá-la em uma esposa dócil e obediente.
E é
justamente aí que começa o nosso desconforto.
Porque,
quando lemos a peça hoje, é difícil não perceber que aquilo que em outra época
podia ser apresentado como uma divertida comédia de costumes também pode ser
interpretado como o retrato de uma sociedade profundamente marcada pelo
patriarcado, na qual a autonomia feminina é vista como um problema a ser
corrigido.
Mas talvez a
grande pergunta seja outra:
Catarina é
realmente uma megera? Ou apenas uma mulher que se recusa a desempenhar o papel
que escreveram para ela?
Catarina é
inconveniente. Ela não é delicada quando esperam delicadeza. Não é silenciosa
quando esperam silêncio. Não aceita facilmente as regras do jogo e não
demonstra interesse em agradar. Em outras palavras, Catarina não cabe no molde.
E personagens que não cabem em moldes costumam incomodar.
A sociedade
apresentada por Shakespeare não parece interessada em compreender Catarina.
Prefere classificá-la. Ela é "difícil", "briguenta",
"indomável". Sua personalidade é transformada em defeito e sua
independência, em ameaça.
Não é
difícil reconhecer esse mecanismo nos dias atuais.
Quantas
vezes uma mulher assertiva é chamada de agressiva, enquanto um homem com o
mesmo comportamento é considerado determinado?
Quantas
vezes uma pessoa que estabelece limites é vista como fria?
Quantas
vezes alguém que se recusa a seguir o roteiro esperado recebe um rótulo?
A distância
entre a sociedade de Shakespeare e a nossa é enorme. Felizmente. Mas alguns
mecanismos de julgamento permanecem surpreendentemente familiares.
Talvez seja
por isso que Catarina ainda nos incomode.
Ela nos
obriga a perguntar quanto daquilo que chamamos de "personalidade
difícil" é, na verdade, apenas uma personalidade que não conseguimos
controlar.
O verbo do
título é uma das grandes chaves para a leitura da peça. "Domar"
pressupõe que existe algo selvagem que precisa ser domesticado.
Petrucchio
não se apresenta como alguém que deseja conhecer Catarina em profundidade. Ele
quer vencer um desafio. A conquista parece assumir a forma de uma disputa de
poder.
E aqui
encontramos um dos aspectos mais inquietantes da peça: o relacionamento entre
os dois pode ser interpretado como uma batalha na qual ambos tentam descobrir
quem terá maior controle sobre o outro.
Mas existe
uma questão que torna a peça ainda mais interessante: afinal, Catarina
realmente se transforma? Ou ela apenas aprende a jogar o jogo?
Essa é uma
das possibilidades de interpretação que tornam a personagem tão fascinante.
No desfecho
da peça, Catarina pronuncia um discurso em defesa da obediência feminina que,
lido literalmente, parece confirmar a vitória de Petrucchio. A
"megera" teria finalmente sido domada. Mas será?
E se
Catarina estiver fingindo? E se o silêncio for, naquele momento, uma
estratégia?
E se a
mulher que parecia ter sido derrotada simplesmente tiver aprendido a sobreviver
dentro das regras do adversário?
Shakespeare
não nos entrega uma resposta definitiva. E talvez seja justamente isso que
mantém a personagem viva. Catarina pode ser vítima, rebelde, estrategista,
mulher apaixonada, mulher resignada ou uma combinação de tudo isso. A
ambiguidade é parte de sua força.
A Megera
Domada se intitula como uma comédia, mas será que nos dias de hoje podemos
interpretar como comédia o que sabemos ser errado? O que pensar de um texto
como esse diante de tanta violência contra a mulher nos dias de hoje?
São fatos a
serem pensados e que Shakespeare nos faz refletir. Será que cinco séculos
depois da escrita do autor ainda estamos discutindo se nós mulheres temos
direito a liberdade?
Porque a
megera na peça, em uma visão do século XXI, é o preconceito, a mercantilização
de um ser humano que precisa atender as necessidades de uma sociedade que vê a
mulher apenas como objeto.
Será que
mudou muita coisa deste então?
Qual é a
megera que precisamos domar hoje em dia?
O
preconceito, a intolerância com o diferente, a objetificação do ser humano, o
sentido de posse como algo arraigado a uma cultura que mata, fere e sai impune.
A Megera
Domada é um livro que precisa ser lido, não para rir, não para se dizer que “leu
Shakespeare”, mas para refletir o quanto cinco séculos depois o mundo ainda se
arrasta na tentativa de igualdade social.
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um e-mail para: prosa.magica@gmail.com
Título: A Megera Domada
Autor: Willian Shakespeare
Gênero: teatro
Editora: Principis
Páginas: 128 páginas
Sobre o Autor: William Shakespeare foi um dos maiores escritores da literatura ocidental. Poeta, dramaturgo e ator inglês, tornou-se célebre por suas peças que exploram, com profundidade e ironia, temas universais como o amor, o poder, o ciúme, a ambição e as relações humanas. Autor de obras como Romeu e Julieta, Hamlet, Macbeth, Otelo e O Rei Lear, Shakespeare continua atual porque seus personagens e conflitos ainda dialogam com as questões e contradições do mundo contemporâneo.

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