Como escritor e artista autodidata, meu método de trabalho
parte, principalmente, da observação. Registro na memória falas alheias,
maneirismos, sons, fatos e pequenos causos do cotidiano. Minha matéria-prima é
a realidade, aquilo que acontece de fato. Toda a minha ficção fala sobre o
real, ainda que atravessado pelo fantástico.
Mas o que acontece quando perdemos nossa capacidade de
consenso? Quando já não conseguimos concordar nem sobre o que é a própria
realidade?
Entre o avanço das inteligências artificiais (capazes de
mimetizar a vida com uma precisão cada vez mais inquietante) e o tsunami de
notícias falsas que sequestra a percepção pública, parece que estamos abrindo
mão da capacidade coletiva de reconhecer o que é verdadeiro.
A realidade, antes entendida como um pacto social mínimo,
fragmentou-se em milhões de feeds personalizados que raramente dialogam entre
si. São pacotes de realidade customizada, moldados por algoritmos, interesses e
emoções.
Nesse cenário, criar histórias fantásticas deixa de ser
apenas um exercício de imaginação ou uma fuga baseada no “e se?”. A ficção
passa a funcionar também como um espaço de investigação. Um convite para
recuperar o espanto, a dúvida e a curiosidade diante do mundo.
Em tempos de excesso de informação e escassez de reflexão,
imaginar talvez seja uma das últimas formas de observar com profundidade.
Para mentes bombardeadas por versões conflitantes da
verdade, a ficção precisa assumir um novo papel social. Se já não conseguimos
concordar sobre o que acontece no noticiário, se a desconfiança atravessa
instituições, discursos e imagens, talvez sejam as histórias que nos ajudam a
reconstruir alguma experiência de identificação coletiva.
Afinal, ainda conseguimos reconhecer a injustiça, a perda,
o medo e a esperança quando eles aparecem diante de nós em forma de narrativa.
Contar histórias, hoje, talvez seja menos sobre escapar da realidade e mais
sobre reaprender a enxergá-la.
Num mundo em que cada pessoa parece confinada à própria
versão dos fatos, a ficção ainda pode abrir janelas, criar pontes e provocar
perguntas difíceis. A fantasia, quando nasce da observação honesta do mundo,
não nos afasta do real. Pelo contrário: ela funciona como um espelho. E nos enxergar
talvez seja exatamente o que precisamos nestes tempos.
Pedro Ivo é escritor, quadrinista e roteirista, criador da série literária Cidadão Incomum, universo de livros e quadrinhos que está em adaptação para o cinema pela O2 Filmes. Suas histórias combinam ficção científica, crítica social e elementos sobrenaturais para abordar temas como identidade, desigualdade e ética no Brasil contemporâneo. Também é coautor de Entre Mundos, obra de terror e sci-fi ambientada na periferia de São Paulo, cujos direitos de adaptação foram adquiridos pela Intro Pictures. Além da literatura e dos quadrinhos, desenvolve projetos narrativos que conectam audiovisual, games e novas tecnologias.
Imagens: Pedro
Ivo/Divulgação


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