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O Perfume das Flores à Noite


─ O que acontece quando a arte, a solidão e a memória se encontram?

Talvez a grande pergunta que permeia toda a trama de O Perfume das Flores à Noite, da escritora franco-marroquina Leïla Slimani seja esta.

Antes de falar do livro digo que este foi um dos presentes mais gostosos que recebi, porque quando um escritor fala de si mesmo, como a história da autora, ela também fala um pouquinho de cada um de nós, que tem na escrita um ponto de diálogo com o mundo, com a vida e com os outros.

Voltando ao livro. Ele parte de um convite recebido pela escritora para passar uma noite sozinha no museu Punta della Dogana, em Veneza. Inicialmente o convite parecia ser apenas para que a escritora se inspirasse e retorne a sua escrita, mas a surpreende uma maneira bem diferenciada.

Slimani transforma essa oportunidade em um mergulho dentro de si mesma e de suas memórias. O museu acaba funcionando como uma extensão da memória de Leïla, onde a cada nova descoberta da arte, a autora também desencadeia dentro de si mesma uma lembrança, ou uma pergunta que precisa de uma resposta. Não é algo que você verá em uma linha cronológica de tempo, mas em fluxos de pensamentos que vão e que voltam.

─ O que acontece quando ficamos sozinhos o suficiente para ouvir aquilo que normalmente é abafado pelo cotidiano?

─ A solidão que escolhemos viver é diferente da solidão que nos é imposta pela falta de pessoas ao nosso redor?

─ É possível estar só em meio a multidões?

Como escritora, Leïla parece transitar entre essas perguntas. Para escrever precisa da solidão e do sossego. É necessário estar só para que se possa ouvir seus personagens em uma conversa intimista. Ao mesmo tempo, escrever é viver o cotidiano, é estar atento às pequenas coisas da vida. Quem escrever busca subsídios no que se relaciona com o outro, com as coisas e com o universo. Então, estar só neste caso não deveria ser propriamente não se relacionar com ninguém, mas buscar dentro de si mesma este espaço de ser.

─ Escrever é revisitar o passado?

Parece que a autora se faz esta pergunta. Enquanto passa a noite sozinha no museu e passeia por suas obras, Leïla revê sua infância e juventude em uma família progressista, mas vivendo em um país de mulheres que não podem quase nada.

Neste ponto, parece que a escritora tenta organizar memórias que ficaram espalhadas dentro de si mesma. Talvez a memória do pai seja a mais contundente. Leïla parece tentar encontrar o pai que ficou no passado, que está dentro de uma ausência cujas lacunas não podem mais ser preenchidas. Então, o que ela faz com uma pessoa que já não pode mais responder as suas perguntas?

E é esse questionamento que parece criar um diálogo com o impossível, uma tentativa de conversar com o passado que não mais poderá nos responder. Qual é o verdadeiro sentido do que vivemos? Somos o passado na forma de presente?

A autora visita o museu sozinha, e isso torna a relação com as obras de arte mais intimas, mais pessoais e profundas.

O próprio perfume das flores (*) funciona como metáfora. A flor perfuma durante determinado período, depois desaparece. A noite passa. A memória se modifica. As pessoas desaparecem. As obras permanecem, mas também são interpretadas de maneira diferente por cada geração. Talvez o grande questionamento aqui seja: ─ A beleza precisa ser permanente para ter valor?

Leïla é a personagem de sua própria obra, ela se coloca dentro do processo da escrita. Aqui neste ponto, talvez todos os escritores se identifiquem. Escrever sobre o nosso processo também é escrita? Já me fiz esse questionamento diversas vezes.


O Perfume das Flores à Noite
é um livro que nos permite uma diversidade de abordagens. Creio que a mais profunda é sobre a função da literatura. Através das histórias que lemos, ou que escrevemos, podemos revisitar o passado, não para explicá-lo, mas um retorno sem medo, um olhar sobre um espelho mágico que nos faz ver com outros olhos algo que antes que não queríamos encarar.

E, bem a estilo da autora. Isto não é uma resenha propriamente dita, mas uma sequência de pensamentos que a visita ao “museu livro de Leïla Slimani” me inspirou. Espero que inspire você também.

 

(*) No livro a autora cita uma obra de arte compostas pelas flores Dama da Noite, que estão dentro de uma redoma de vidro. Essas flores são conhecidas por exalar seu perfume por uma única noite e depois fenecer.

 

Título: O Perfume das Flores à Noite

Autor: Leïla Slimani

Tradução: Francesca Angiolillo

Gênero: Biografia

Editora: Harper Collins

Páginas: 128 páginas

 

Sobre o Autor:  Leïla Slimani nasceu em 1981, em Rabat, no Marrocos, em uma família francófona. Aos 17 anos, mudou-se para Paris, onde estudou Ciências Políticas e, antes de se dedicar à literatura, trabalhou como jornalista. Estreou na ficção em 2014, com No Jardim do Ogro, mas ganhou projeção internacional com Canção de Ninar, vencedor do prestigioso Prêmio Goncourt de 2016. Escritora franco-marroquina, Slimani também se destaca por abordar em sua obra temas como identidade, memória, sexualidade, liberdade feminina e relações familiares.

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