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Biblioteca de Stuttgart e o labirinto de Borges


Fernando Pessoa dizia que navegar é preciso. Bem, nem sempre isso é verdade. A navegação pela internet muitas vezes nos leva a lugar nenhum, outras nos coloca frente a frente com verdadeiras joias. E foi assim que eu conheci a Biblioteca de Stuttgart na Alemanha.

Criada pelo arquiteto sul coreano Eun Young Yi foi inaugurada em. A biblioteca por fora é um grande cubo branco e por dentro tem um vazio central. É minimalista, silenciosa e hermética. Parece um grande livro em branco. Como um caderno que você irá escrever a sua própria história. Pensando bem, não é nenhum exagero dizer que é exatamente isso que acontece quando entramos em uma biblioteca. Acrescentamos sempre um capítulo a mais para nossas vidas.

Ah! Esse vazio interno, essas escadas, esse espaço geométrico no qual o olhar se perde no vazio. Como não pensar em Borges e sua Biblioteca de Babel.

Em Borges, a biblioteca é infinita, sufocante e labiríntica. Lá dentro estão todos os livros possíveis, mesmo que os bibliotecários não tenham ideia de onde encontrá-los. É essa oferta que condena os habitantes a angustia da abundância: o excesso de sentido se transforma em ausência de sentido. Já em Stuttgart, a biblioteca aparenta responder a essa vertigem com um gesto radicalmente oposto. Não o acúmulo, mas a contenção. Não o labirinto, mas a clareza. Não o excesso de mensagem, mas o convite à meditação.


O grande vazio central do edifício funciona quase como a ideia materializada; é necessário espaço para que o conhecimento exista. Espaço para o silêncio, para a pausa, para a escolha consciente de um livro entre muitos. Aquele espaço que permite a entrada do novo na vida.

Fico pensando que Borges imaginou a biblioteca como metáfora do caos infinito da linguagem. Já Young Li concebeu Stuttgart como resposta a mais contemporânea das perguntas: ─ Como pensar em meio ao excesso de ruído? ─ O vazio é realmente vazio?

Acredito que o arquiteto não fez uma homenagem direta a Borges, por tudo o que pesquisei sobre ela na internet, mas o diálogo entre ambas é inevitável. A Biblioteca de Stuttgart soa como aquilo que viria depois da Biblioteca de Babel, se Borges escrevesse um novo romance. É quando já sabemos que não precisamos de todos os livros que existem, mas apenas daqueles que nos ajudará a crescer como seres humanos e também os que conseguiremos ler, sem o estresse.

É neste exato ponto que a literatura parece mágica. Quando você observa na realidade cotidiana algo que dialoga com a criação da ficção.

Creio que Borges e Young Li nem se conheceram pessoalmente, mas suas obras irão dialogar pela eternidade.

Lindo final de semana!

Fotos do interior e exterior da Biblioteca Publica de Stuttgart - Internet

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