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Os Detetives Selvagens

Sabe aquele livro que você lê, mas não sabe o que escrever sobre ele? Não pelo fato de não ter assunto, mas porque você termina a trama e não consegue responder a uma pergunta básica: ─ Gostei da história?

Os Detetives Selvagens, de Roberto Bolaño pertence a esse grupo de livros. Ele nos convida para dentro de uma época da vida, tempos e atitudes que não combinam muito com minha visão de mundo. É uma história sobre juventude transviada, quase um diário de um adolescente meio sem cabeça, sem rumo, que tem a inquietação da idade, mas extrapola um pouco o ponto entre razoável neste quesito.

A princípio, a leitura causa uma sensação de desorientação. Bolaño não entrega uma narrativa linear, confortável, com começo, meio e fim muito bem comportados. A história é construída por diferentes vozes, depoimentos e lembranças, como se estivéssemos folheando um enorme diário coletivo. E talvez seja justamente aí que esteja uma de suas maiores qualidades.

Há uma intensidade quase exagerada em tudo: a literatura é uma questão de vida ou morte; o amor pode durar para sempre; uma viagem pode mudar completamente o destino; uma amizade pode parecer mais importante do que qualquer outra coisa. É aquele período da existência em que ainda acreditamos que precisamos descobrir quem somos — e que essa descoberta será, de alguma maneira, extraordinária.

Arturo Belano e Ulises Lima, os dois poetas que estão no centro dessa aventura, parecem viver permanentemente em movimento. Procuram a poetisa Cesárea Tinajero, mas essa busca acaba sendo muito maior do que encontrar uma pessoa. Eles procuram uma espécie de origem, uma explicação para a poesia e, talvez sem perceber, procuram também a si mesmos.

Psicologicamente, os personagens são interessantes justamente porque parecem estar sempre tentando construir uma identidade. São jovens que querem ser diferentes, livres, escritores, poetas e, sobretudo, não querem pertencer ao mundo convencional. Existe aí uma contradição bastante humana: ao mesmo tempo em que desejam fugir das regras, precisam desesperadamente que alguém reconheça aquilo que estão fazendo.

É possível enxergar nos poetas de Bolaño aquela fase em que a pessoa acredita que sua maneira de viver precisa necessariamente refletir suas convicções, sem nenhum filtro. A literatura não pode ser apenas uma atividade; precisa ser uma forma de existência. O amor não pode ser apenas um relacionamento; precisa ser uma experiência transformadora. A viagem não pode ser apenas uma viagem; precisa significar alguma coisa.

E talvez seja por isso que o livro tenha uma aparência tão próxima de um diário adolescente. Eles costumam registrar não apenas o que aconteceu, mas aquilo que sentiram que aconteceu. Um encontro pode ganhar proporções épicas. Uma discussão pode parecer o fim de uma amizade. Uma paixão pode adquirir a dimensão de uma tragédia grega. Bolaño faz algo semelhante, só que com uma estrutura literária muito mais complexa.

O livro é quase um quebra cabeça que você precisa montar. É personagem que entre na trama, sai da trama, conta sua versão e some. Você acaba tendo uma visão craquelada do que acontece.

Apesar de toda essa movimentação, existe uma melancolia crescente. Os jovens que pareciam destinados a viver uma grande aventura envelhecem. As amizades mudam, os amores terminam, as pessoas desaparecem e os sonhos literários nem sempre encontram o destino imaginado. A busca continua, mas já não possui a mesma inocência.

É nesse ponto que Os Detetives Selvagens se transforma também em uma reflexão sobre o tempo. Talvez todos nós passemos boa parte da vida procurando alguma coisa que não sabemos exatamente nomear. Quando somos jovens, imaginamos que encontrá-la resolverá tudo. Mais tarde, descobrimos que o verdadeiro objetivo era a procura.

─ Existe um mapa para a vida?

Esta questão transpassa a trama, mas o autor parece não se preocupar em dar uma resposta.

Os Detetives Selvagens pode ser lido como uma aventura literária, uma história sobre poesia, uma narrativa sobre amizade ou até mesmo como um grande retrato de uma geração. Mas também pode ser lido como aquele velho diário que muitos de nós gostaríamos de esconder depois de adultos: cheio de certezas que já não temos, paixões que pareciam eternas e sonhos que, naquele momento, pareciam absolutamente possíveis.

Talvez seja justamente por isso que o livro seja tão humano e nos incomode tanto.  Porque por trás dos personagens de Detetives Selvagens, há a nossa necessidade universal de descobrir quem somos, de nos autoconhecer antes que a vida faça isso e nos deixe a dúvida se estamos ou não sendo nós mesmos.

Recomendo a leitura, mas com a ressalva de que o livro pode te incomodar.

 

Título: Os Detetives Selvagens

Autor: Roberto Bolaño

Tradução: Eduardo Brandão

Gênero: Ficção Mexicana

Editora: Companhia das Letras

Páginas: 624 páginas

Sobre o Autor: Roberto Bolaño (1953–2003) foi um escritor e poeta chileno que viveu parte importante de sua vida no México e, posteriormente, na Espanha. Aos 15 anos decidiu que seria escritor e abandonou os estudos ainda jovem para dedicar-se à literatura. Em 1975, participou da criação do Infrarrealismo, movimento de vanguarda mexicano que defendia uma literatura mais livre e distante dos padrões estabelecidos. Sua obra reúne poesia, contos e romances marcados pela experimentação, pela literatura dentro da própria literatura e por personagens inquietos, muitas vezes em busca de identidade e pertencimento.

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