E se a sua mãe pudesse ter sido aquilo que você consegue imaginar que seria uma vida ideal para ela. Como seria essa biografia imaginária?
Violeta,
a protagonista do livro de Isabel Allende é a vida imaginária da mãe da
escritora. Possui as mesmas características físicas, intelectuais e emocionais,
mas apesar de todos os seus talentos, não teve uma vida autônoma. A vida que Allende
desejaria para ela.
Violeta
é memória em forma de ficção, um livro tão envolvente e emotivo que você
precisa parar para repor o folego, para conter as emoções que jorram como fontes
de sentimentos. Allende consegue extrair o mais profundo de nós.
A
história começa em 1920, ano de nascimento de Violeta, em meio a pandemia de gripe
espanhola. E, até sua morte com cem anos, a personagem vive todos os grandes
acontecimentos mundiais como a Grande Depressão, a luta pelo direito das
mulheres, as transformações dos costumes, as consequências da primeira guerra e
a segunda guerra mundial, as ditaduras na América Latina e a pandemia de Covid-19.
As
crises e os grandes acontecimentos não são simples fatos históricos na trama,
mas primordiais para mudanças no cotidiano da vida das pessoas. Uma crise
econômica não aparece apenas como indicador econômico; ela pode significar
perder a casa. Uma mudança política não aparece apenas como acontecimento
institucional: ela pode significar medo, exílio, desaparecimento ou separação
de uma família. Uma guerra não aparece apenas nos livros de história: ela chega
através de cartas, notícias, perdas e mudanças de comportamento.
Essa
é uma característica muito forte da escrita de Allende: a História entra na
casa das personagens, muda suas vidas, determina o destino de cada um. Nada mais
lógico, na medida em que esses mesmos assuntos interferem totalmente na vida de
pessoas reais como nós.
Em
Violeta, o país nunca é nomeado. Isabel Allende queria uma liberdade ficcional,
que desse o direito de alterar datas, lugares, paisagens e construir seu
próprio mundo. No entanto, em uma análise mais profunda, é o Chile que ela
retrata.
A forma
epistolar em que o romance foi escrito transforma a trama em um testamento
vivo. Violeta reflete sobre sua própria vida ao escrever para Camilo. Ela
escancara os acontecimentos em cartas que falam de sua vida íntima para alguém
que se tornou padre. O ato pode ser interpretado como uma espécie de confissão,
ou uma necessidade de perpetuar a própria vida que está chegando ao fim.
Em
seu texto fluído, Isabel Allende parece conversar com grandes nomes da
literatura como Gabriel Garcia Marques, Júlio Cortázar, Juan Rulfo, Jorge
Amado, as irmãs Brontë etc. Tem um pouco de cada um deles em sua escrita. Isso
ajuda a compreender por que sua literatura não deve ser reduzida ao rótulo de
“realismo mágico”. Ela combina saga familiar, romance histórico, melodrama,
aventura, narrativa de formação, memória, romance amoroso e comentário social.
A
autora é comparada a Gabriel Garcia Márquez, mas na prática não é bem isso que ocorre.
Em declarações à imprensa, Isabel reconhece a influência de “Cem Anos de
Solidão”, mas também questiona a tendência da crítica de enxergar García
Márquez como uma espécie de parâmetro obrigatório para a literatura
latino-americana escrita por mulheres.
Ela
observa que seus livros não utilizam sempre o realismo mágico e que esse
recurso não pertence exclusivamente à literatura latino-americana.
Em Violeta,
essa distância fica ainda mais evidente. Se em “Cem Anos de Solidão” a
família funciona como uma espécie de microcosmo mítico, em Violeta a família
funciona principalmente como microcosmo histórico e afetivo. O sobrenatural dá
lugar à memória. O mito dá lugar ao testemunho.
A
questão feminina é o ponto mais forte nesta obra. Não há em nenhum momento um
discurso feminista, mas a própria trajetória da personagem é um testemunho
desta questão. Violeta passa por tudo o que é esperado de uma mulher como o
casamento e a maternidade. No entanto, ela coloca uma questão contemporânea em
sua vida, que é a liberdade. Na história essa liberdade passa pela independência
financeira, pelo trabalho, pela busca do conhecimento e de seu papel em uma
sociedade machista e conservadora.
Tem
uma questão muito importante, mas que não irei me alongar muito, que é o tema
de perda. Na trama, Violeta perde a filha. Na vida real, Isabel perdeu sua
filha Paula para a Porfiria. A autora não reproduz a morte da filha, mas
dialoga com ela através de Violeta.
O
que torna Violeta particularmente interessante para uma leitura mais atenta?
São
cinco ponto que destaco em sua obra: A memória como construção; A mulher como
testemunha da história; Independência e liberdade; a passagem do tempo como objeto
de reflexão; a escrita como forma de perpetuar sua própria história. Cada um
desses temas daria um texto inteiro de análise.
Violeta
não é um livro para ser lido como a história de uma mulher que viveu um século.
A personagem é alguém que viveu cem anos tentando conquistar o direito de ser
autora de sua própria vida, e no final ela literalmente escreve sua história com
as cartas para Camilo.
É um
livro sensível que considero como leitura obrigatória para quem deseja entender
não só a luta das mulheres por um lugar neste mundo, mas em como os acontecimentos
no mundo e na política nos afetam de forma efetiva.
Momento
ideal para fazer esta reflexão.
Título: Violeta
Autor: Isabel Allende
Tradução: Ivone Benedetti
Gênero: Literatura Chilena
Editora: Bertrand Brasil
Páginas: 322 páginas
Sobre
a autora: Isabel
Allende, nascida em 1942, é uma das escritoras de língua espanhola mais lidas e
traduzidas de todos os tempos, célebre por sua maestria em entrelaçar a ficção
histórica com o realismo mágico. Profundamente marcada pelo golpe militar de
1973 no Chile — que derrubou seu primo de segundo grau, o presidente Salvador
Allende —, ela foi forçada a se exilar na Venezuela, onde transformou a dor da
distância em literatura ao estrear com o fenômeno mundial A Casa dos
Espíritos (1982). Ao longo de mais de quatro décadas de uma carreira
brilhante, a autora construiu uma vasta obra que explora temas como memória,
paixão e as convulsões políticas da América Latina, além de emocionar leitores
com relatos íntimos como Paula (1994), escrito após a perda precoce de
sua filha. Hoje, radicada nos Estados Unidos e vencedora de honrarias máximas
como o Prêmio Nacional de Literatura do Chile e a Medalha Presidencial da
Liberdade americana, Allende concilia seu legado literário com o ativismo
social por meio de sua fundação voltada à proteção de mulheres e crianças.

Viva Violeta! 💖✨💐💐 Amei! 💖✨
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