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Tudo é Rio

Eu estava devendo esta leitura. Quem me conhece bem sabe que deixo passar um pouco as leituras viralizadas para somente depois ler e refletir sobre elas. Tudo é Rio fez parte desta turma.

Durante todo o percurso da obra tive a impressão que Carla Madeira nos fazia uma pergunta:

─ Até onde conseguimos compreender alguém sem necessariamente justificar aquilo que essa pessoa fez?

Creio que é difícil responder isso, mas vou começar esta resenha do princípio, daquilo que faz a escrita da autora nos envolver.

Uma das características mais marcantes é que a linguagem não está apenas contando a história: ela participa emocionalmente dela. Há uma espécie de musicalidade na prosa de Carla que nos apresenta frases que parecem pequenas imagens poéticas. Mas essa delicadeza convive com situações extremamente brutais.

É importante dizer isso porque a autora não utiliza uma linguagem realista convencional para narrar a violência. Ela cria uma espécie de contraste: quanto mais brutal é determinado acontecimento, mais a linguagem pode adquirir uma dimensão poética. Confesso que isso me desconcertou completamente. Compreendi a partir dai o porquê da obra fazer parte daquelas que “ou você ama, ou você odeia”.

Uma das grandes riquezas do livro é que a trama não é apenas uma história sobre um triângulo amoroso. O triângulo entre Dalva, Venâncio e Lucy é a superfície de uma investigação sobre desejo, posse, sofrimento e capacidade de transformação.

Dalva é o amor após a destruição. É uma personagem complexa, que você não consegue compreender à primeira vista. Ela é fruto de uma confiança destruída, que aos poucos ela vai remendando, mesmo que nós, os leitores não percebamos isso ao longo da maior parte do livro. Eu fiquei me perguntando o porquê dela não abandonar Venâncio. Só compreendi no final da trama.

Venâncio é o típico personagem que parece ter uma desculpa para ser quem é. Típico macho alfa que acha que tem a propriedade de uma mulher, como se ela fosse um objeto. Ele é horrível e nada justifica as atitudes, que não só destroem Dalva, mas também deixam Lucy a beira de uma loucura. (impossível passar por ele sem julgar)

Lucy é o desejo em forma de pessoa. Você (Eu) se irrita com ela desde o começo. O palavreado, as atitudes, a forma como se relaciona com os homens, se objetificando como ser, como um pedaço de carne que serve apenas para ser tocado, excitado e depois descartado após uns instantes de sexo pago. Um personagem que precisa de paciência para ser desvendado.

No entanto, precisamos refletir sobre algo importante na obra. Em Tudo é Rio  desejo e amor não aparecem necessariamente como forças positivas.

O desejo pode produzir aproximação, mas também obsessão. O amor pode produzir cuidado, mas também pode ser confundido com posse. O ciúme pode revelar medo, mas pode se transformar em violência.

E finalmente o perdão pode representar libertação, mas também pode provocar um desconforto em nós, leitores. Quem daria o seu perdão em uma situação como a vivida por Dalva?

Essa ambiguidade torna o romance interessante para uma leitura psicológica na medida em que Carla Madeira não parece interessada em oferecer uma fórmula moral do tipo “aconteceu isso, e o personagem deve fazer aquilo”. A autora não fala de receitas, mas faz reflexão sobre possibilidades.

Tudo é Rio não é um livro construído na fórmula da jornada do herói, mas circula a trama em torno de uma violência, que não termina no momento que acontece, mas se perpetua reverberando nos fatos posteriores. A violência é o acontecimento central da história, mas as consequências continuam circulando entre seus personagens, mesmo depois que você chega ao fim.

O passado continua interferindo no presente. Nesse sentido, a metáfora do rio torna-se ainda mais interessante: uma pedra lançada na água desaparece de vista, mas as ondas continuam se espalhando. Você vê apenas a onda, mas há uma pedra no fundo dele.

Não existem referências de o porquê de Carla Madeira ter escrito esta história, mas ela escreveu, e então, enquanto criava Tudo é Rio o inesperado aconteceu: A cena envolvendo Venâncio, Dalva e o filho foi tão forte para a escritora que ela permaneceu sem continuação durante aproximadamente 14 anos.

Fato é que Tudo é Rio é um livro necessário. Uma história dura, áspera, que foi escrita por mãos de poetisa. Considero que apenas isso nos faz continuar a ler.

Recomendo a leitura, mas aviso de antemão que é um texto para quem não tem medo de encarar a realidade que parte de nossa sociedade vive. É antes de tudo um texto instrutivo.

E retornando ao início de nossa conversa. ─ Até onde conseguimos compreender alguém sem necessariamente justificar aquilo que essa pessoa fez?

E você chega à conclusão de que compreender Dalva não significa necessariamente concordar com suas escolhas. Compreender Lucy não significa reduzi-la a prostituição em que vive, e compreender Venancio, nunca será perdoá-lo pelo que fez.

Compreender em Tudo é Rio significa alongar o olhar sem julgar, sem nos colocar no lugar deles, sem pensar no que faríamos no lugar deles, apenas observá-los dentro do contexto onde vivem.

Então, neste momento, Tudo é Rio se transforma em uma experiência de tolerância que está acima da maioria de nós. Por isso é profundo, e talvez apenas por isso seja muito humano.

Título: Tudo é Rio

Autor: Carla Madeira

Gênero: Literatura Brasileira

Editora: Record

Páginas: 210 páginas

 

Sobre a autora: Carla Madeira nasceu em Belo Horizonte, formou-se em jornalismo e publicidade. Foi professora de redação publicitária na Universidade Federal de Minas Gerais e socia e diretora de criação da agência de comunicação Lápis Raro. Tudo é Rio foi seu primeiro romance lançado em 2014 e aclamado pela crítica.

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